sexta-feira, novembro 10, 2017

O tubarão 'pré-histórico' com 300 dentes capturado por acidente. DA BBC BRASIL 10/11/2017  11h37
http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2017/11/1934358-o-tubarao-pre-historico-com-300-dentes-capturado-por-acidente.shtml
Dentes do tubarão-enguia (Chlamydoselachus anguineus

Quando os biólogos marinhos se depararam com ele na rede de pesca, viram de cara que não se tratava de um animal comum.
Não se parecia com nada que haviam visto antes. Tinha uma cabeça redonda e uma longa fileira de 300 dentes finos e afiados, típicos de um predador.
Em pouco tempo, constataram que estavam diante do Chlamydoselachus anguineus, chamado popularmente de tubarão-enguia, uma espécie pré-histórica pouco conhecida.
O animal foi capturado, em agosto, próximo a Algarve, no sul de Portugal.
'FÓSSIL VIVO'
Embora seja considerado um "fóssil vivo", o tubarão-enguia é uma espécie que se encontra bem distribuída geograficamente. Está presente de Angola ao Chile, da Guiana à Nova Zelândia, da Espanha ao Japão.
Mas pouco se sabe sobre seus hábitos e o tamanho da sua população. Eles costumam viver a muitos metros de profundidade, o que torna difícil encontrá-los e monitorá-los.
Diferentemente da maioria dos tubarões, esta espécie tem uma cabeça redonda, e não achatada              No caso do tubarão capturado em Portugal, o animal foi apanhado por uma rede lançada a 700 metros de profundidade.
Mas o que o torna tão especial?
SOBREVIVENTE
"Esse tubarão pertence à única espécie sobrevivente de uma família de tubarões em que todos os outros foram extintos", disse à BBC Margarida Castro, professora e pesquisadora do Centro de Ciências Marinhas da Universidade de Algarve.
"Alguns acreditam que essa espécie remonta ao período jurássico tardio. Pode ser um pouco mais recente, mas, de qualquer jeito, estamos falando de dezenas de milhões de anos. Por isso, é muito antigo em termos evolutivos. Está na Terra certamente antes do homem", acrescenta.
Castro faz parte do projeto MINOUW, uma iniciativa para minimizar o desperdício de animais que são descartados nos navios de pesca europeus, o que explica a presença de pesquisadores em um barco de pesca comercial.
PREDADOR
Embora a maioria dos tubarões tenha uma cabeça chata, e a do tubarão-enguia seja redonda, as barbatanas e toda parte inferior do corpo não deixam dúvidas de que se trata de um tubarão, e não de uma espécie de enguia.
Mas, segundo a pesquisadora, o que é realmente único neste animal são os dentes.

As barbatanas e a parte inferior do corpo permitem identificar que se trata de um tubarão.                       "Ele tem uma grande fileira de dentes perpendiculares à mandíbula. São muito afiados, finos e apontam para dentro. Isso permite a ele pegar presas grandes e não deixá-las escapar, os dentes as impedem de sair", explica Castro.
"Claramente se trata de um predador muito agressivo", completa.
A espécie capturada em Portugal era um macho adulto de 1,5 metro de comprimento. Quando o animal foi retirado do mar, já estava morto.
"A partir dessa profundidade, a maioria dos peixes chega morta. A rede sobe muito rápido, e eles não sobrevivem à súbita mudança de pressão", esclarece.
RISCO DE EXTINÇÃO?
A escassez de informação sobre a espécie dificulta saber, inclusive, se ela corre risco de extinção.
A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN, na sigla em inglês) classifica o tubarão-enguia como uma espécie "quase ameaçada", devido ao receio de que a expansão da pesca em águas profundas aumente os casos de captura acidental.
Para Castro, no entanto, ainda é muito difícil responder se é realmente uma espécie ameaçada.
"Não sabemos qual é a proporção de captura. Se a taxa de pesca é proporcional ao quão rara é sua presença no oceano, então estamos diante de uma espécie ameaçada de extinção, mas não temos essa informação neste momento", aponta.                                                             

quarta-feira, novembro 01, 2017

Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros é reaberto após ser atingido pelo maior incêndio da história Por Murillo Velasco, G1 GO 01/11/2017 08h00 
https://www.youtube.com/watch?v=wiL6odVKTMc&t=168s
Visitação na reserva foi retomada às 8h desta quarta-feira (1º) após ficar 21 dias fechada; expectativa da administração do local é que frequentadores aqueçam o turismo na região.
Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros foi reaberto ao público na manhã desta quarta-feira (1º), depois de 21 dias fechado por conta do incêndio que devastou 28% da área da reserva e foi considerado por especialistas o maior da história da reserva. De acordo com o chefe do parque, Fernando Tatagiba, as visitações devem reaquecer o turismo na região, que foi diretamente afetado durante o fechamento.
“É muito feliz e importante esta reabertura. As visitações já voltam e, por dia 2 de novembro [quinta-feira] ser feriado, é mais um fator para dar aquele fôlego para as pousadas, para quem vive do turismo na região, já que o parque acaba se tornando uma excelente opção”, disse ao G1.
Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o espaço foi aberto para os turistas às 8h. Os visitantes tem até 12h para entrar no parque, e devem sair da reserva até as 18h. O parque fica aberto de terça-feira a domingo. Nos meses de janeiro e julho o parque fica aberto todos os dias, por se tratar de férias escolares.

A visitação ao parque é limitada de acordo com a capacidade das trilhas. A Trilha dos Saltos pode receber até 250 visitantes por dia. Já a Trilha dos Cânions, 200. Para quem pretende visitar a Trilha da Seriema, é importante ficar atento pois são liberados apenas 30 visitantes por dia. Por último, a Travessia das Sete Quedas, que permite até 20 pessoas acampadas durante a noite.
Vale da Lua é uma das principais atrações da Chapada dos Veadeiros em Alto Paraíso de Goías (Foto: Vitor Santana/G1)

Incêndio
Os primeiros focos do incêndio que levaram ao fechamento do parque começaram no dia 10 de outubro e as chamas foram controladas, mas novos focos surgiram no dia 17 do mesmo mês. Bombeiros, brigadistas do ICMBio e do Ibama e voluntários atuaram no combate ao fogo que destruiu 66 mil hectares da Chapada. A Força Aérea Brasileira (FAB) também contribuiu cedendo aviões.
Uma chuva intensa na região da Chapada dos Veadeiros que começou no sábado (28) ajudou as equipes a terminarem de apagar o fogo. Mesmo após o controle das chamas, grupos seguiram na região para fazer o rescaldo e evitar novos focos do incêndio.
Antes da reabertura da reserva, a região sofreu com expressiva queda no número de visitantes. No entanto, mesmo com o Parque Nacional fechado, várias atrações da região continuaram abertas.
Polícia Civil acredita que incêndio na Chapada dos Veadeiros tenha sido criminoso (Foto: Vitor Santana/G1)

Fogo histórico
O incêndio foi considerado pelo ICMBio o maior da história do Parque. O grupo que combatia as chamas chegou a trabalhar 20h por dia e enfrentar sensações térmicas de 40ºC durante o trabalho.
A Polícia Civil suspeita que o incêndio seja criminoso. "A parte mais rasteira da vegetação, as áreas de campo limpo, campo sujo, já começam a se regenerar seis meses após as primeiras chuvas. Cerca de 80% dessa parte já volta ao normal nesse período. Dentre de um ano e meio, o restante se regenera", explicou ao G1 Christian Berlinck.
O Ministério Público Federal (MPF) também abriu inquérito civil para apurar as causas do incêndio.
Brigadistas voluntários ajudaram a combater o incêndio no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (Foto: Vitor Santana/G1)

Impacto ambiental
O ICMBio estima que algumas partes da vegetação do parque vão demorar mais de um ano para poder se recuperar do incêndio. "A parte mais rasteira da vegetação, as áreas de campo limpo, campo sujo, já começam a se regenerar seis meses após as primeiras chuvas. Cerca de 80% dessa parte já volta ao normal nesse período. Dentre de um ano e meio, o restante se regenera", explicou ao G1 Christian Berlinck.
Além disso, apesar de não terem sido encontrados animais silvestres mortos, os danos às próximas gerações dos bichos preocupam as autoridades ambientais.
               Chapada dos Veadeiros é um dos principais destinos turísticos de Goiás (Foto: Vitor Santana/G1)
Turismo
Com a queimada no parque e, consequentemente o seu fechamento para visitação, muitas pessoas desistiram de visitar a região. Entretanto existem outros pontos de turismo abertos ao público.
A secretária de Turismo da cidade explica que a queimada no parque trouxe um impacto que ainda não pode ser medido com precisão. "Tem o impacto ambiental, acima de tudo, danos patrimoniais com casas atingidas pelo fogo e também a queda no movimento. Porém, esse último só vai poder ser medido com precisão durante o feriado", relatou.

Ela conta ainda que a secretaria tem alertado os turistas de que não há risco de se visitar a região da Chapada dos Veadeiros e que existem várias atrações.
POR BRASIL. 01/11/2017  07:10
POR MARCELO TOLEDO, EM FOZ DO IGUAÇU (PR)
Considerado patrimônio mundial natural, o Parque Nacional do Iguaçu, que abriga as Cataratas do Iguaçu, deve bater recorde histórico de visitação neste ano. E, a partir desta quarta-feira (1), os ingressos ficarão mais baratos.
De 1º de janeiro até a última segunda-feira (30), o parque já recebeu 1,44 milhão de visitantes, média diária de 4.774 turistas.

O recorde pertence a 2015, com 1,64 milhão de visitantes. A expectativa é que, mantido o ritmo atual, mais de 1,7 milhão de pessoas visitem o parque até o fim do ano, principalmente por causa das cataratas.
                              Cataratas atraíram 1,44 milhão de visitantes em 2017 – Crédito: Parque Nacional do Iguaçu
Com altura de até 80 m, elas são formadas pelas quedas do rio Iguaçu, 18 quilômetros antes de ele juntar-se ao rio Paraná. De outubro a março, as cataratas apresentam o maior volume de água e o total de saltos pode ultrapassar uma centena.
Diretor institucional do Grupo Cataratas, empresa responsável pelos serviços de visitação turística do parque, Fernando Sousa disse que entre os motivos para o recorde de visitação estão a promoção do espaço no país e fora dele e parcerias para a atração de novos voos para Foz do Iguaçu.
O parque apresentava aumento crescente no fluxo até o revés de 2016, devido à crise na economia nacional. No ano passado, o total de visitantes foi de 1,56 milhão.
O indício de que 2017 seria um ano positivo ocorreu já em julho, quando o parque atingiu 1 milhão de visitas 19 dias antes do recorde de 2015.
            Vista aérea do parque, que abriga espécies ameaçadas de extinção – Crédito: Parque Nacional do Iguaçu

ATRAÇÃO
No lado brasileiro, as cataratas têm cerca de 800 m de largura e, no lado argentino, 1.900 m. Há 19 principais saltos, cinco dos quais no lado brasileiro.
A melhor vista para observar as cataratas é a partir do Brasil, já que a maior parte dos saltos que estão na Argentina estão voltados para o Brasil.
O parque, criado em 1939 e declarado patrimônio mundial natural pela Unesco em 1986, abriga espécies de animais ameaçados de extinção, como onça-pintada, jacaré-de-papo-amarelo, gavião-real, puma e papagaio-de-peito-roxo.
MAIS BARATOS

A partir desta quarta-feira (1), os ingressos para visitar o parque ficarão 1,72% mais baratos.
Com isso, visitantes brasileiros pagarão R$ 37,30. Para estrangeiros dos países membros do Mercosul, o valor será de R$ 50,30 e, para turistas dos demais países, R$ 63,30.
A correção dos valores foi autorizada pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodervisidade) e também é válida para todos os outros parques nacionais.
A atualização do preço ocorre exatamente um ano após a última alteração e a queda ocorreu devido à variação do IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado) entre agosto de 2016 e o mesmo mês deste ano, que foi negativa em 1,72%.
Também a partir desta quarta, começará a venda conjunta de ingressos para três atrativos turísticos na região: o parque, Itaipu  e o marco das três fronteiras (Brasil, Argentina e Paraguai).

segunda-feira, outubro 02, 2017

Após 20 anos, presença do raro gavião-real é registrada em São Paulo; ouça.                                                    FERNANDO TADEU MORAES
DE SÃO PAULO
28/09/2017  02h00
Gavião-real, também conhecido como harpia, se aproxima de ninho em Alta Floresta, no Mato Grosso.            A presença de um gavião-real, uma das maiores aves de rapina do mundo, foi documentada no Estado de São Paulo pela primeira vez em ao menos 20 anos.
O canto da harpia –a outra denominação do pássaro–, foi registrado pelo biólogo Bruno Lima em 2012, na região do rio Preto, em Itanhaém, e depositado na semana passada na plataforma Wikiaves, fórum utilizado para divulgação prévia de resultados da área.
O artigo em que é descrito o raro achado acaba de ser enviado para a revista científica "Atualidades Ornitológicas" e aguarda a aceitação. Mas especialistas que ouviram o áudio a pedido da Folha creem que se trata mesmo de uma harpia, animal considerado criticamente ameaçado em SP.
Para Felipe Bittioli Gomes, professor da Universidade Federal do Pará, não há dúvida de que se trata do canto de um gavião-real. "É um registro indiscutível. Dentre os vários tipos de canto do gavião-real, o mais característico é o territorial, justamente o que foi registrado."
Tânia Sanaiotti, pesquisadora do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) e coordenadora do Projeto Harpia, é um pouco mais cautelosa. "Ele de fato parece o canto de uma harpia, embora seja curto."
Já o biólogo Marco Antonio Granzinolli, especialista em aves de rapina, é enfático: "É o canto de uma harpia".
Além disso, entre os 20 comentários no Wikiaves a respeito do áudio registrado por Lima, não há nenhuma contestação de sua veracidade.
Embora avistamentos de harpias tenham sido reportados em São Paulo nos últimos anos, os registros documentados são raros. Os últimos são de um espécime capturado supostamente no início dos anos 1970, pertencente ao museu de zoologia da Unesp de São José do Rio Preto, e outro, realizado em 1993, no município de Cananeia, no litoral paulista.
"É um registro bastante importante", diz Sanaiotti, "e só reforça a urgência de proteção dessa espécie." A especialista em ecologia de aves Martha Argel afirma que se trata de um achado relevante, já que a harpia pode ter desaparecido da maior parte de São Paulo. 
     
Argel explica ainda que, na ornitologia, registros sonoros são equivalentes aos fotográficos. "Algumas espécies são até mais registradas pela voz do que por fotografias."
A harpia habita sobretudo a Amazônia e é considerada a ave mais poderosa do mundo devido ao seu incrível poder de tração, que lhe possibilita, por exemplo, arrancar um bicho-preguiça de uma árvore.
É, ademais, aquilo que na ecologia é chamado de um predador de topo de cadeia, ou seja, tem no seu habitat a mesma importância que uma onça ou um tubarão têm em seus respectivos ecossistemas.
"A presença de uma harpia indica que o ambiente está equilibrado, pois um predador de topo só irá existir se a floresta estiver saudável e conseguir sustentar as presas. Ou seja, se contiver todos os elementos biológicos para a manutenção do ecossistema como um todo ", diz Gomes.
Estima-se que um casal da espécie necessite de uma área de ao menos 100 km2 para sobreviver.
TERMELÉTRICA
Em outubro de 2012, Lima caminhava numa trilha na mata de Itanhaém quando ouviu uma gralha-azul cerca de 25 metros acima de sua cabeça. "Ela fazia um chamado de alarme, como se houvesse algum predador por perto."
"Escutei então o grito inconfundível de uma ave de rapina. Liguei o gravador e vi a cabeça da harpia em meio à folhagem de uma árvore."
Lima conta que guardou o registro por cinco anos por receio de que a divulgação pudesse ameaçar a vida da ave. "Anteriormente, quando divulguei a existência dos papagaios-de-cara-roxa, que poucos sabiam existir naquela área, queimaram o ninho com os filhotes dentro dele. Fiquei com medo de que o mesmo pudesse acontecer à harpia."
A motivação para a publicação do registro agora é a possibilidade de um complexo termelétrico ser instalado em Peruíbe, segundo explica Lima. De acordo com o projeto –em processo de licenciamento ambiental–, torres de transmissão passarão pela região onde a harpia foi encontrada.
"Se as torres forem instaladas, há um risco enorme de que essa ave, que há décadas não víamos em SP, morra ao colidir com elas, como ocorre com os Tuiuiús no Pantanal."
Procurada, a Gastrading, empresa responsável pelo empreendimento, diz que o Estudo de Impacto Ambiental aponta o potencial impacto sobre as aves da região devido ao aumento do risco de colisão com as torres e cabos.
Devido a isso, foram propostas "medidas de controle e monitoramento, considerando a implantação de sinalizadores nos cabos da linha de transmissão, a diminuição da distância entre cabos, o que minimiza o risco de colisão, além de monitoramento de potenciais acidentes".
O GAVIÃO-REAL
HABITAT
Vive em florestas de planície e altitudes de até 2.000 m acima do nível do mar
DISTRIBUIÇÃO
Pode ser encontrada na região amazônica e em alguns pequenos trechos da mata atlântica, especialmente no sul da Bahia e no norte do Espírito Santo
TAMANHO
Mede de 90 a 105 cm de comprimento e pode atingir até 2 metros de envergadura
PESO
Machos pesam de 4 kg a 5 kg, e fêmeas de 7,6 kg a 9 kg
ALIMENTAÇÃO
É constituída principalmente de mamíferos como preguiças, veados, quatis e tatus. Também captura aves como seriemas e araras. Suas garras de até 7 cm permitem ao gavião-real capturar presas com mais de 6 kg
REPRODUÇÃO
É monogâmico e constrói o ninho em formato de plataforma no alto de árvores
STATUS DE PRESERVAÇÃO
A espécie é considerada criticamente ameaçada em toda a região Sul e nos nos Estados de SP, MG, ES
Fonte: Aves de Rapina Brasil

sexta-feira, setembro 29, 2017

Cientistas brasileiros usam canto e DNA para identificar nova perereca no Cerrado
Paula Adamo Idoeta - @paulaidoetaDa BBC Brasil em São Paulo
28 setembro 2017
Pithecopus araguaius foi identificada no Mato Grosso por pesquisa de campo que começou em 2010 (Foto: Divulgação)
Cientistas brasileiros anunciaram a descoberta de uma nova espécie de anfíbio no Cerrado, o que evidencia, segundo eles, o potencial ainda inexplorado (e ameaçado) desse bioma no Centro-Oeste do Brasil.
A perereca Pithecopus araguaius foi primeiro avistada pelos pesquisadores - ligados às universidades Unicamp, em São Paulo, e Federal de Uberlândia (UFU), em Minas Gerais - em estudos de campo em 2010.
Desde então, foi possível confirmar que se tratava de uma nova espécie graças a extensos estudos de DNA e análises morfológicas (da aparência do animal), além de dados acústicos dos sons emitidos pelo anfíbio, distintos dos emitidos até mesmo por pererecas do mesmo gênero Pithecopus.
"O canto serve para que a fêmea reconheça o macho da mesma espécie. Isso nos ajudou a diagnosticar que era (uma espécie) diferente das espécies irmãs", explica à BBC Brasil o taxonomista Felipe Andrade, um dos autores da pesquisa - recém-publicada no periódico científico Plos One - ao lado de Isabelle Aquemi Haga, Daniel Pacheco Bruschi, Shirlei Recco-Pimentel e Ariovaldo Giaretta.
Além disso, os pesquisadores notaram que a araguaius tem a cabeça e o corpo de tamanho um pouco menor que suas irmãs do gênero Pithecopus e um padrão diferente (que os cientistas chamam de não reticulado) de manchas no corpo.
Há, agora, 11 tipos de Pithecopus documentados, sendo o araguaius o mais novo deles. Algumas pererecas desse gênero preferem altitudes mais elevadas, o que também as diferencia da araguaius, que habita terras baixas.
"O reconhecimento da Pithecopus araguaius é importante para o conhecimento da riqueza de anfíbios e diversificação de padrões nessa região", diz trecho do artigo publicado no site da Plos One.


Perereca recém-descoberta se diferencia de suas irmãs por tamanho menor da cabeça e do corpo e diferenças no padrão de manchas; acima, registro dos cientistas dela vista de cima e de baixo (Foto: Divulgação)
Bioma a ser conhecido
araguaius foi descoberta na cidade de Pontal do Araguaia, no Mato Grosso, à beira do rio Araguaia - daí seu nome. Posteriormente, os cientistas documentaram a existência da nova espécie também na Chapada dos Guimarães e na cidade mato-grossense de Santa Terezinha.
"A descoberta mostra que em 2017 ainda temos espécies a serem descritas no Cerrado, uma região com alto índice de biodiversidade e sob forte impacto da ação humana", afirma Andrade.
Seu orientador, Ariovaldo Giaretta, acrescenta à BBC Brasil que o fato de essa região do Brasil estar sob pressão - sobretudo pela expansão do agronegócio - pode colocar em risco eventuais descobertas de outras espécies.
"Por acaso achamos essa nova espécie. Quantas outras podem existir? E não temos ideia de o que está sendo perdido nas áreas (de Cerrado) que estão sumindo", diz Giaretta. "Se novos vertebrados ainda estão aparecendo (nas pesquisas), pode haver outras criaturas vivas - invertebrados, plantas. (...) É estarrecedor que (muitas áreas) estejam virando pasto para boi."
No estudo, os pesquisadores citam o Cerrado como "um dos mais ameaçados hotspots da Terra, sobretudo pela perda de hábitats por conta do desenvolvimento urbano e agrícola".
E a própria araguaius pode estar sob perigo de extinção, por ser uma perereca que habita áreas baixas e, portanto, de interesse do agronegócio.
"Ainda precisamos de muitos esforços para conhecer nossa biodiversidade do Cerrado e mais ainda da Amazônia", opina Andrade.

segunda-feira, setembro 11, 2017

Como doença de menina causou comoção e mudou a forma de país criar porcos                                             DA BBC BRASIL 11/09/2017  12h44
     Menina contraiu superbactéria dos porcos da fazenda em que vivia 
Fazendeiros ao redor do mundo estão dando antibióticos para animais em grande escala para mantê-los saudáveis e reduzir o preço de carnes, mas isso ajudou a criar uma grave crise de saúde pública.
Uso excessivo desses medicamentos na criação de animais como porcos e galinhas permite que bactérias desenvolvam resistência. Há três anos, por exemplo, foi descoberto que bactérias em porcos na China já resistiam ao potente antibiótico colistina.
Mas um país decidiu mudar drasticamente e ir contra essa tendência –tudo por causa de uma menina chamada Eveline.
Em 2003, a filha do fazendeiro holandês Eric van den Heuval, então com um ano de idade, foi levada ao hospital às pressas para uma cirurgia cardíaca.
Ela havia nascido com um problema congênito. Se não fosse operada, poderia morrer.
"Fomos ao hospital, mas o médico disse: 'O teste dela foi positivo para [a bactéria] MRSA [também conhecida pela sigla SARM, para Staphylococcus aureus resistente à meticilina]. Ela não pode ser operada'", diz Eric.
Para surpresa de Eric, Eveline havia contraído uma superbactéria dos porcos de sua fazenda –uma variante que pode ser transmitida no contato com animais contaminados e foi encontrada também em criadores de porcos na Dinamarca e na Alemanha.
"Aquele momento mudou totalmente a vida da minha família", afirma Eric.
Por causa de Eveline, Eric decidiu mudar a forma como cuidava da fazenda.
A história de sua filha levou outros fazendeiros a mudar suas práticas também.
"Quando você ouve sobre Eric e sua filha e como isso tudo está nos matando, você é compelido a fazer algo a respeito", diz o fazendeiro Gebert Oosterlaken, que também cria porcos.
Ele e Eric formaram um grupo para reunir outros fazendeiros e veterinários para debater o problema e buscar soluções.
Eles passaram a cuidar dos porcos sem antibióticos, usando bactérias probióticas para combater micro-organismos prejudiciais à saúde dos animais e mantendo-os separados em zonas higienizadas para impedir a proliferação de doenças.
"Hoje, você percebe pela aparência deles, seu brilho, seus olhos, que eles estão mais saudáveis. Assim, eles morrem menos, minha produtividade aumenta e é mais fácil criá-los", diz Gebert.
O governo holandês agora divulga as técnicas desenvolvidas por Eric, Gebert e seus colegas, e diz que o uso de antibióticos em animais caiu 65%.
"É claro que sentimos orgulho do que atingimos dentro de nosso pequeno grupo, mas, na realidade, conseguimos criar um movimento que mudou a criação de animais na Holanda", afirma Gebert.
O especialista em antibióticos Jaap Wagenaar diz que Gebert e Eric foram muito importantes nessa mudança por terem sido os primeiros a adotar formas de reduzir o uso desses medicamentos nas suas fazendas.
"Eles atuam como embaixadores. Mostram aos seus colegas quais opções eles têm."
E como está a filha e Eric hoje?
"Hoje, ela tem 16 anos", diz Eric ao lado de Eveline em sua fazenda. "É muito saudável –e está livre da superbactéria."   

sexta-feira, setembro 01, 2017

Queimadas ajudam a preservar diversidade de espécies no cerrado

REINALDO JOSÉ LOPES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA                                                                                        
01/09/2017  02h01

Cerrado, que tem sua biodiversidade beneficiada quando há queimadas controladas
O único jeito de preservar a diversidade de espécies do cerrado, um dos biomas mais ricos e ameaçados do Brasil, é queimá-lo de vez em quando.
Sem a presença intermitente do fogo, as plantas típicas desse ambiente correm o risco de sumir, dando lugar a uma formação florestal relativamente empobrecida, revela um estudo feito no interior paulista.
De modo geral, as áreas de cerrado do município de Águas de Santa Bárbara (SP) que passaram três décadas sem serem tocadas pelas chamas devem ter perdido 27% de suas espécies vegetais e 35% de suas espécies de formigas (grupo muito diversificado, que serve como indicador da biodiversidade animal da região como um todo).
Se a conta incluir somente os "especialistas" em cerrado, que vivem apenas nesse bioma, o cenário fica ainda mais desanimador: perda de 67% das plantas e 86% das formigas.
"A gente acabou de apresentar os resultados num congresso sobre restauração florestal, e todo mundo ficou espantado", contou à Folha a pesquisadora Giselda Durigan, do Instituto Florestal (órgão do governo do Estado).
Giselda e seus colegas (de instituições como Unesp, Unicamp, Universidade Federal de Uberlândia e Universidade da Carolina do Norte) também estão publicando os dados na edição desta semana da revista especializada "Science Advances".
Em alguma medida, o problema detectado pela equipe seria esperado, visto que os vários tipos de vegetação que perfazem o cerrado parecem ter evoluído para se adaptar à ação dos incêndios naturais, provocados pela longa estação seca que caracteriza o bioma.
De fato, diversas plantas desse ambiente precisam até de uma mãozinha do fogo para que suas sementes germinem. Outras, como os arbustos e as gramíneas, não conseguem crescer em áreas de vegetação mais fechada, e a queima periódica ajuda a manter o terreno livre para que prosperem.
NA PRÁTICA
Nas circunstâncias atuais, no entanto, as áreas que são reservas naturais tendem a adotar uma política restritiva de controle de incêndios, ao passo que os trechos de cerrado nas mãos de proprietários rurais, além de já muito degradadas e fragmentadas, não queimam como antigamente.
Giselda e seus colegas usaram dois métodos para medir o impacto dessa transformação. Primeiro, estudaram a diversidade de espécies de plantas e formigas em 30 trechos diferentes de cerrado da Estação Ecológica de Santa Bárbara.
Incluíram na análise tanto áreas em que o cerrado é naturalmente mais fechado, com presença razoável de árvores, quanto as que têm predomínio de campos mais abertos –e, o que é crucial, os trechos onde formações florestais surgiram faz pouco tempo, nas últimas décadas.
A medição da diversidade de espécies atual foi comparada com imagens de satélite que ajudam a contar como era a região há 30 anos e como ela está hoje.
É isso o que ajuda os pesquisadores a saber qual seria a distribuição de espécies típica do cerrado "natural" e, portanto, o quanto se perdeu com o aparecimento das novas matas. "Em geral, essas áreas florestais novas são formadas por espécies muito generalistas. Em inglês, o pessoal usa até o termo 'tramp species' [espécies vagabundas]", conta a pesquisadora.
Nas condições atuais, explica Giselda, deixar que os incêndios naturais façam a diversidade de espécies do cerrado voltar ao normal não seria uma boa ideia por causa da fragmentação do ambiente, que poderia perder suas poucas áreas remanescentes se não houver controle.
O ideal seria o manejo ativo do fogo nessas áreas. "Temos um conhecimento tradicional que poderia ser empregado para ajudar nisso, como o do manejo de pastos, dos próprios canaviais, e o utilizado pelas populações indígenas há séculos."
        FOGO DO BEM
O cerrado sofre queimas espontâneas, que o renovam
O cerrado é um bioma que combina áreas com mais espécies de árvores e vastos trechos de vegetação aberta, com biodiversidade única que depende da forte presença da luz solar e de incêndios naturais periódicos para que suas sementes germinem
VIROU FLORESTA
O manejo das reservas naturais do cerrado hoje, bem como alterações trazidas pela expansão agropecuária, tem impedido esses incêndios naturais. Numa área de cerrado do interior de SP, essa mudança fez com que áreas naturalmente abertas virassem floresta nos últimos 30 anos
A agropecuária impede esse fenômeno natural
MENOS ESPÉCIES
O resultado foi uma diminuição de cerca de 30% na diversidade de espécies de plantas e de formigas dessas áreas -provavelmente porque espécies únicas do cerrado já não conseguiam se estabelecer
Após os incêndios, há um aumento da biodiversidade
COM CUIDADO
Para reverter essa perda, o recomendável é fazer a queima controlada dessas áreas abertas do bioma