A Colossal quer ressuscitar antílope
extinto há 200 anos com mais de 100 alterações genéticas. Só existem 5
exemplares em museus. Entenda o projeto de desextinção.
A Colossal Biosciences incluiu o antílope-azul, extinto por volta de
1800 pela caça na África do Sul, em seu programa de desextinção, projeto que
exige mais de 100 alterações genéticas a partir de genoma reconstruído de um
dos cinco exemplares de museu, usando edição de DNA, células-tronco e óvulos de
antílopes vivos.
A empresa de biotecnologia que já trabalha para trazer de volta o
mamute-lanoso, o dodô e o lobo-terrível agora incluiu um antílope extinto na
sua lista de animais que pretende “ressuscitar”. A Colossal Biosciences anunciou nesta quinta-feira (30) que o
antílope-azul, espécie de nome científico Hippotragus leucophaeus descrita
oficialmente em 1766 e extinta por volta de 1800 devido à caça intensiva na
África do Sul, se juntou aos projetos de desextinção da empresa, que já
envolvem o mamute-lanoso, o dodô, o moa, o tilacino e o lobo-terrível. O
antílope-azul desapareceu em pouco mais de três décadas após ser catalogado
cientificamente, vítima da colonização europeia que dizimou populações inteiras
do animal para obter pele e carne.
O desafio de trazer o antílope de volta é tecnicamente complexo mas
conta com vantagem que outros projetos de desextinção não possuem. A proximidade genética entre o antílope-azul e espécies vivas como
o antílope-ruão e o antílope-sable facilita experimentos porque permite
utilizar óvulos e estruturas reprodutivas de animais existentes como base para
gerar embriões com características editadas para se aproximar da espécie
extinta. A equipe da Colossal estima que recriar as
características do antílope-azul exigirá mais de 100 alterações no código
genético, número que reflete tanto a complexidade do processo quanto a limitação de informações disponíveis sobre um
animal que só sobrevive em cinco exemplares preservados em museus ao redor do
mundo.
O ponto de partida para a
desextinção do antílope-azul é um genoma detalhado reconstruído a partir de um
dos cinco exemplares de museu. Apesar da escassez de material
genético disponível, pesquisadores conseguiram sequenciar o DNA preservado e
identificar as diferenças entre o antílope extinto e seus parentes vivos mais
próximos, mapeamento que orienta quais alterações genéticas precisam ser
realizadas para transformar células de um antílope-ruão em algo geneticamente
semelhante ao animal que desapareceu. Estudos indicam que o antílope-azul manteve
baixa diversidade genética mas permaneceu estável por aproximadamente 400 mil
anos, informação que ajuda os cientistas a entender a viabilidade de recriar
uma população a partir de base genética limitada.
As técnicas utilizadas combinam métodos que a biotecnologia moderna
desenvolveu nas últimas décadas. A OPU (Operação de Unidade de
Proteção) permite coletar óvulos de antílopes vivos com auxílio de ultrassom,
através de agulha que alcança o ovário do animal, procedimento que já
apresentou bons resultados em espécies como o antílope-ruão e o
órix-de-cimitarra. Esses óvulos são então utilizados em
fertilização laboratorial combinados com material genético editado para gerar
embriões que carregam características do antílope-azul, processo que transforma
um animal vivo em portador de traços de uma espécie que a humanidade exterminou
há mais de 200 anos.
O papel das células-tronco na recriação do antílope extinto
As células-tronco pluripotentes
representam avanço que amplia significativamente as possibilidades do projeto. Essas células têm capacidade de
se transformar em diferentes tipos de tecido, o que permite aos pesquisadores
realizar testes genéticos de forma controlada sem depender exclusivamente de
animais vivos, reduzindo tanto o custo quanto o impacto ético de experimentos
que precisam ser repetidos dezenas de vezes até que as mais de 100 alterações
genéticas necessárias sejam realizadas com precisão. Para o antílope-azul, as células-tronco funcionam como
laboratório intermediário onde edições genéticas são testadas e validadas antes
de serem aplicadas em embriões que efetivamente gerarão um animal.
O número de alterações genéticas necessárias é indicativo da distância
evolutiva entre o antílope extinto e seus parentes vivos. Mais de 100 modificações no DNA significam que cada gene relevante
precisa ser identificado, editado com ferramenta de precisão como CRISPR e
verificado para garantir que a mudança produza o efeito desejado sem
comprometer outras funções do organismo. Um erro numa única
alteração pode gerar anomalias que inviabilizam o embrião, e a margem de acerto
precisa ser altíssima quando multiplicada por cem modificações simultâneas,
realidade que explica por que projetos de desextinção levam anos e consomem
recursos que poucos laboratórios do mundo podem bancar.
Por que a Colossal escolheu o antílope-azul entre
tantas espécies extintas
A seleção do antílope não foi aleatória. A
existência de parentes vivos geneticamente próximos é vantagem que espécies
como o mamute-lanoso não possuem com a mesma intensidade: enquanto o
elefante-asiático, parente mais próximo do mamute, divergiu há milhões de anos,
o antílope-ruão e o antílope-sable compartilham ancestralidade recente com o
antílope-azul, proximidade que reduz o número de alterações necessárias e
aumenta a probabilidade de que os embriões editados sejam viáveis. Além
disso, trabalhar com a desextinção do antílope pode gerar benefícios para a
conservação de outras espécies ameaçadas como o saiga, o adax e a gazela-dama,
animais que enfrentam risco semelhante ao que extinguiu o antílope-azul.
O antílope-azul também oferece cenário de reintrodução mais viável do
que outras espécies do portfólio da Colossal. As regiões da África do Sul
onde o animal vivia ainda existem e podem ser restauradas com
apoio de organizações ambientais que já atuam na recuperação de habitats,
diferentemente do caso do mamute-lanoso que precisaria de ecossistema ártico
que o aquecimento global está transformando rapidamente. Para a empresa, o antílope-azul combina viabilidade técnica com
impacto conservacionista que justifica o investimento e que demonstra que a
desextinção pode servir à preservação de espécies vivas além de recuperar as
que desapareceram.
O que falta para o antílope-azul voltar a existir
Apesar do otimismo da equipe, obstáculos técnicos significativos
permanecem no caminho da desextinção do antílope. Métodos como fertilização in vitro e transferência nuclear
precisam atingir nível de precisão que projetos com outras espécies ainda não
alcançaram plenamente, e cada etapa do processo, da edição genética à gestação
em barriga de aluguel de antílope-ruão, envolve variáveis biológicas que a
ciência controla apenas parcialmente. Embriões já estão em
desenvolvimento e a edição genética avança para etapas finais, mas transformar
embrião em animal saudável que sobreviva fora do laboratório é salto que nenhum
projeto de desextinção completou até agora.
O
objetivo declarado é reintroduzir na natureza um animal muito próximo do
antílope-azul em regiões onde ele habitava na África do Sul. Ainda
não há garantias de que o resultado final será idêntico à espécie original,
porque mesmo com mais de 100 alterações genéticas alguns traços comportamentais
e adaptativos podem não ser reproduzíveis apenas por edição de DNA. A
proposta que parecia distante começa a se tornar mais concreta à medida que a
tecnologia avança, e se a Colossal conseguir trazer de volta um antílope que a
humanidade extinguiu há mais de dois séculos, a mensagem será tão poderosa
quanto a conquista científica:
somos capazes de corrigir erros que nossos antepassados cometeram contra a
biodiversidade.
E você, acha que devemos tentar ressuscitar espécies extintas ou é melhor focar na preservação das que ainda existem? Deixe sua opinião nos comentários.

