segunda-feira, setembro 14, 2026

 A areia da nascente canta quando é esfregada e o rio despenca mais de 500 metros até a foz: a cidade paulista que virou capital do turismo de aventura por causa da água

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Vitor Bruno Por Vitor Bruno 

 10 setembro 2026 14:05Turismo

Cidade de interior costuma dar as costas para o rio que a atravessa. Em Brotas, no centro do estado de São Paulo, aconteceu o contrário: o Rio Jacaré-Pepira virou a razão de existir do turismo local. Ele nasce alto, cai muito e chega ao Tietê centenas de metros abaixo, e é esse desnível que enche o percurso de corredeiras e quedas.

Por que o Rio Jacaré-Pepira tem tantas corredeiras?

Por causa da diferença de altura entre as duas pontas do curso. O rio nasce na Serra de Itaqueri, a 960 metros de altitude, percorre 174 km e deságua no Tietê em Ibitinga a cerca de 400 metros, conforme a Secretaria de Turismo de Brotas. Perder mais de meio quilômetro de altitude em um trajeto relativamente curto é o que transforma o leito em degraus.

 

A água que desce por esses degraus também é incomum para a região. A mesma secretaria aponta taxa de pureza de 89% no trecho que corta a cidade, marca rara entre os afluentes do Tietê, e a microbacia do rio cobre 7.219 km² espalhados por 13 municípios. Foi essa combinação de queda e água limpa que sustentou a virada econômica local.

Brotas chama atenção pelos esportes de aventura e pela natureza // Créditos: Wikipedia / Wikimedia 

O que faz a areia da nascente emitir som?

A forma dos grãos. Na nascente conhecida como Areia que Canta, a areia do fundo é composta quase inteiramente de quartzo, e milhares de anos de movimentação da água arredondaram cada grão até deixá-los lisos e uniformes. Quando alguém pega um punhado e esfrega entre as mãos, o atrito produz um ruído grave que lembra uma cuíca.

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O fenômeno depende de um detalhe geológico maior. Brotas está sobre o Aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do planeta, e a nascente é um ponto onde essa água aflora direto do subsolo em meio à mata. A piscina natural que se forma ali é transparente a ponto de deixar cada grão visível no fundo.

Brotas reúne cachoeiras, rios e trilhas no interior paulista // Créditos: Wikipedia /

Wikimedia Commons

Leia também: A primeira eclusa da América do Sul aberta ao turismo levanta barcos em 26 metros de desnível nesta cidade paulista cortada por uma hidrovia de 2.400 km

Quais passeios estruturam a visita a Brotas?

A Prefeitura de Brotas lista rafting, boia cross, canionismo, tirolesas, arvorismo, cicloturismo e balonismo entre as atividades das operadoras locais, e boa parte das cachoeiras fica em fazendas particulares abertas com ingresso. Confira abaixo os pontos que organizam o roteiro:

  • Parque dos Saltos: cartão-postal dentro da cidade, com quedas e corredeiras em sequência à beira da mata ciliar. A entrada é gratuita e funciona todos os dias.
  • Rafting no Jacaré-Pepira: descida de bote pelas corredeiras, com trechos que variam de conduzir criança a exigir remada firme, dependendo do volume do rio.
  • Areia que Canta: nascente com piscina natural em meio à mata, onde a areia de quartzo produz som ao ser friccionada. A visita é guiada e agendada.
  • Eco Parque Cassorova: fazenda a cerca de 26 km do centro que dá acesso à Cachoeira Cassorova e à Cachoeira dos Quatis, com trilhas calçadas e mirante.
  • Cachoeira do Ástor: queda usada para rapel e canionismo, com estrutura simples de apoio e acesso por fazenda particular.
  • Casa das Máquinas: construção dentro do Parque dos Saltos que lembra a época em que a cidade produzia a própria energia elétrica, já em 1911.

Quem quer adrenalina no interior de São Paulo, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Casal Alencar, com mais de 277 mil visualizações, onde Bruno e Adriana mostram um roteiro em Brotas:

Como é o clima em Brotas ao longo do ano?

O ano se divide entre um verão chuvoso e um inverno bastante seco, e essa diferença muda o volume do rio e a força das quedas. Outubro registra média de 117 mm de chuva, contra 28 mm em julho. Veja abaixo o comportamento de cada estação:

🌧️Verão

Dezembro a fevereiro19°C a 30°C

Chuva alta

As pancadas aparecem no fim da tarde e o rio ganha mais volume.

💦 RIO MAIS CHEIO

🍂Outono

Março a maio15°C a 28°C

Chuva em queda

As chuvas rareiam e as manhãs ficam mais frescas.

MELHOR EQUILÍBRIO

☀️Inverno

Junho a agosto12°C a 28°C

Chuva baixa

O ar fica seco, o céu aberto e as corredeiras perdem força.

☀️ PERÍODO MAIS SECO

🌸Primavera

Setembro a novembro16°C a 31°C

Chuva voltando a subir

O calor cresce e as chuvas retornam a partir de outubro.

🌦️ CHUVAS DE VOLTA

Temperaturas e médias de chuva aproximadas com base na climatologia do Climatempo. As condições variam de um ano para outro por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale conferir a previsão antes de fechar as atividades de água.

Como chegar saindo da capital paulista?

São aproximadamente 240 km desde a capital, cerca de três horas de viagem por rodovias em boas condições. O acesso final se dá pela SP-225, que corta a região e leva ao trevo de entrada da cidade.

A distância curta explica parte do movimento. O município recebe muito visitante de fim de semana, com mais de 40 meios de hospedagem entre pousadas, chalés e hotéis-fazenda, segundo a Prefeitura de Brotas. Boa parte dos sítios turísticos fica em estrada de terra, então carro alto ajuda em dias de chuva.

Uma cidade construída em cima do próprio rio

Poucos municípios paulistas conseguiram transformar um recurso natural em identidade econômica com tanta clareza. O desnível que faz o Jacaré-Pepira cair, a água limpa que desce por ele e o aquífero que alimenta as nascentes explicam tudo o que se vende ali, do bote à trilha.

Você precisa reservar um fim de semana em Brotas, descer a primeira corredeira e depois caminhar até a nascente para ouvir a areia cantar entre os dedos.

segunda-feira, agosto 17, 2026

 

Na Groenlândia, o degelo das geleiras movimenta nutrientes presos nas profundezas e pode elevar em até 40% a produtividade do fitoplâncton durante o verão

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Roberta Patriota Por Roberta Patriota  16 agosto 2026 00:00Em Ciência

Como o derretimento de uma geleira pode alimentar a vida no oceano? A água de degelo da Groenlândia sobe em forma de pluma, trazendo nutrientes das profundezas e aumentando a produtividade do fitoplâncton em até 40% durante o verão.

 

Por que a água de degelo favorece o crescimento do fitoplâncton?

O fenômeno começa abaixo da superfície, onde a água doce liberada pela geleira encontra a água salgada e mais densa do fiorde. Como é mais leve, a água de degelo sobe e provoca um movimento vertical capaz de transportar água profunda.

Essa água traz nutrientes como o nitrato, que funciona como um recurso essencial para o crescimento do fitoplâncton. Esses organismos microscópicos realizam fotossíntese e formam a base de muitas cadeias alimentares marinhas.

O processo pode ser resumido em quatro etapas:

  • Descarga: a água doce chega ao oceano pela base da geleira.
  • Ascensão: a diferença de densidade faz a pluma subir.
  • Transporte: água profunda rica em nutrientes é incorporada ao movimento.
  • Crescimento: o fitoplâncton aproveita nutrientes e luz nas camadas superiores.

Leia também: Massimo Cacciari, filósofo italiano: “Só vivem bem aqueles que não dependem defendem a sua lei interior e não prejudicam ninguém”

 

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 Onde esse fenômeno foi estudado na Groenlândia?

Os pesquisadores analisaram a Baía de Disko, conhecida localmente como Qeqertarsuup Tunua, no oeste da Groenlândia. A região recebe a descarga da geleira Sermeq Kujalleq, também conhecida como Jakobshavn, uma das geleiras mais ativas da camada de gelo.

O estudo utilizou um modelo biogeoquímico de alta resolução para reproduzir a circulação da água e comparar os resultados com observações de clorofila feitas por satélites. Os dados indicaram uma forte relação entre a pluma glacial e a produtividade durante o verão.

O trabalho científico foi publicado na revista Communications Earth & Environment e avaliou como a descarga subterrânea altera a disponibilidade de nutrientes na região costeira.

Quanto o fitoplâncton pode aumentar durante o verão?

As simulações indicaram que a ressurgência provocada pela descarga glacial pode elevar a produtividade de verão entre 15% e 40% na Baía de Disko. O efeito não ocorre de maneira uniforme, ficando mais intenso nas áreas próximas às saídas das geleiras. Em algumas simulações, a diferença foi ainda maior em determinados anos e locais. Quando a pluma estava presente, as concentrações de clorofila aumentavam nas águas próximas aos fiordes, indicando maior atividade do fitoplâncton.

Isso acontece principalmente porque o verão chega depois do período em que a primeira floração de primavera já consumiu boa parte dos nutrientes disponíveis na superfície. A ressurgência de água profunda ajuda a repor parte desse material.

Mais fitoplâncton significa que o degelo é benéfico?

Não. O aumento localizado da produtividade não transforma o derretimento da camada de gelo em um processo positivo. O mesmo fenômeno está associado à perda de massa da Groenlândia, que contribui para a elevação do nível do mar.

Além disso, o efeito sobre o carbono é menor do que o aumento de produtividade poderia sugerir. O estudo calculou que, apesar do crescimento de verão, a absorção anual de dióxido de carbono na área aumentaria apenas cerca de 3%, devido a outros processos físicos e químicos.

Leia também: Demócrito, filósofo grego: “Quem vive apenas para acumular trabalha como se a vida nunca fosse acabar”

O que essa descoberta revela sobre a água de degelo da Groenlândia?

A descoberta mostra que o derretimento de uma geleira não altera apenas a quantidade de gelo existente. A água de degelo também modifica a circulação do oceano, transporta nutrientes e pode mudar a atividade biológica em regiões costeiras. Esse efeito ajuda a explicar por que pesquisadores estudam cada vez mais a interação entre gelo, oceano e ecossistemas.

A NASA destaca que a descarga subterrânea pode transportar nutrientes das profundezas para águas onde o fitoplâncton encontra luz suficiente para crescer.

O caso da Baía de Disko mostra, portanto, uma consequência menos evidente do degelo: enquanto a Groenlândia perde gelo, suas águas costeiras podem receber um pulso de nutrientes capaz de estimular a vida microscópica durante o verão. O aumento de até 40%, porém, é um efeito local e sazonal, não uma compensação para a perda de gelo.

terça-feira, agosto 04, 2026

 A salamandra-das-cavernas da Península Balcânica, que virou foco de biólogos ao apresentar diferenças marcantes de tamanho e adaptação de habitat em relação à tradicional espécie-de-fogo

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27 de julho de 2026, 02.45h



O proteu vive em galerias subterrâneas e adaptou se completamente a escuridão das cavernas – gerada por IA 

Pontos-Chave do Artigo

O GIGANTE CEGO DAS CAVERNASComo a vida nas trevas profundas moldou um corpo único de 40 centímetros.

O CONTRASTE RADICAL DE HABITATAs diferenças marcantes entre o mundo subterrâneo e a vida em florestas úmidas.

O MISTÉRIO DA LONGEVIDADE EXTREMAOs dados biológicos revelados por estudos científicos em ambientes aquáticos isolados.

Nas galerias escuras e alagadas do Carste Dinárico, uma criatura pálida desafia as regras convencionais da biologia de anfíbios. Enquanto a maioria das espécies precisa da luz do sol e da vegetação terrestre, o proteu (Proteus anguinus) se desenvolveu inteiramente na água subterrânea da Península Balcânica. Com corpo alongado e adaptações fisiológicas extremas, este animal atinge dimensões superiores às de seus parentes da superfície.

Como o proteu se adaptou ao ambiente subterrâneo?

A vida nas cavernas exige transformações corporais severas para qualquer organismo vertebrado. Ao longo de milênios nas águas da Eslovênia, Croácia e Bósnia e Herzegovina, o proteu perdeu a pigmentação da pele e desenvolveu olhos atróficos cobertos por camada cutânea. Essa anatomia reduzida é compensada por receptores sensoriais altamente apurados na cabeça, permitindo a detecção de pequenas vibrações e compostos químicos dissolvidos no meio aquático.

Essa fisiologia especializada permite que esse organismo sobreviva anos sem se alimentar, mantendo o consumo metabólico reduzido em ambientes estéreis.

Quais são as diferenças de tamanho em relação à salamandra-de-fogo?

O porte físico distinto chama a atenção de pesquisadores ao comparar esses dois anfíbios europeus. Enquanto a salamandra-de-fogo (Salamandra salamandra) mede entre 15 e 25 centímetros quando adulta, o proteu consegue ultrapassar 40 centímetros de comprimento total. Esse crescimento estendido é favorecido pelo metabolismo desacelerado e pela ausência de predadores naturais de grande porte nos rios subterrâneos do Carste Dinárico.

 Mas aqui está o detalhe: a temperatura constante da água desacelera o envelhecimento, permitindo marcas centenárias de longevidade com incrível eficiência energética.

Com corpo pálido e alongado, o proteu atinge dimensões superiores às de anfíbios da superfície. – Imagem gerada por IA

Como o habitat influencia o modo de vida de cada anfíbio?

As florestas úmidas europeias abrigam a salamandra-de-fogo, um animal predominantemente terrestre que busca abrigo sob troncos caídos e folhas decompostas. Em contrapartida, o proteu nunca abandona o ambiente aquático, passando toda a sua existência imerso na escuridão total das galerias de calcário. Essa divergência radical de ecossistema moldou estratégias de caça e estruturas corporais completamente opostas entre as espécies.

As condições do meio externo moldaram adaptações biológicas específicas que diferenciam o modo de vida desses dois anfíbios na Europa continental:

  • Ambiente de caça: A salamandra-de-fogo caça invertebrados em solo úmido, enquanto o proteu captura minúsculos crustáceos na água doce.
  • Mecanismos de defesa: O anfíbio de superfície utiliza toxinas cutâneas e cores de aviso, já a espécie subterrânea depende do camuflamento na escuridão.
  • Reprodução e ovos: as fêmeas terrestres depositam larvas em riachos rasos, enquanto as cavernícolas protegem ovos em fendas rochosas submersas.

Por que o proteu conserva características larvares na fase adulta?

O fenômeno da neotenia explica por que o proteu mantém guelras externas rosadas e cauda achatada ao longo de toda a sua vida adulta. Diferente de outros anfíbios que passam por metamorfose completa para abandonar a água, essa espécie retém traços juvenis permanentes. Esse processo evolutivo permitiu a consolidação de uma existência estritamente aquática em sistemas de cavernas isolados da atmosfera externa.

É aí que a história fica intrigante: a retenção dessas estruturas corporais garante vantagem biológica nos rios subterrâneos de fluxo estável e frio.

  • Guelras externas: permitem a captação contínua de oxigênio dissolvido sem a necessidade de emergir para respirar ar atmosférico.
  • Pele fina: auxilia na respiração cutânea complementar diretamente na água subterrânea rica em minerais.
  • Nadeira caudal: facilita o deslocamento ágil e silencioso por meio de correntes de água em canais estreitos.

A baixa taxa metabólica do proteu permite que ele sobreviva longos períodos em águas profundas. – Imagem gerada por I

O que a ciência revela sobre a sobrevivência dessas espécies?

Pesquisas em biologia evolutiva demonstram que a estabilidade térmica das cavernas permitiu a preservação de linhagens antigas na Europa. Estudos dedicados à anatomia do proteu mostram que a baixa taxa metabólica e a regeneração celular avançada ajudam a compreender a longevidade incomum da espécie. O monitoramento rigoroso dessas populações aquáticas ajuda a mapear a qualidade das reservas hídricas do subsolo balcânico.

A preservação do ecossistema depende de medidas rigorosas para evitar a poluição de águas subterrâneas e a destruição de habitats frágeis.

Citação do Estudo AcadêmicoESTUDO

A análise morfológica e fisiológica do anfíbio subterrâneo confirma taxas metabólicas reduzidas e adaptações ímpares para a vida em ecossistemas limnológicos isolados.

estudo publicado no Journal of Zoology, 1997

Como a conservação protege os ecossistemas de cavernas?

A preservação do Carste Dinárico exige esforços conjuntos entre governos locais e órgãos de proteção ambiental para blindar os aquíferos. Como o proteu é extremamente sensível a alterações químicas na água, qualquer contaminação agrícola ou industrial pode dizimar populações inteiras. Proteger o ambiente subterrâneo garante a sobrevivência de espécies únicas e preserva a integridade de ecossistemas aquáticos indispensáveis.

Ambientes subterrâneos abrigam biodiversidades raras e vulneráveis, conforme aponta a análise sobre novas espécies descobertas em cavernas e formações de calcário, reforçando o compromisso global com a conservação biológica.