Outro segmento vai para o litoral, passa
por Misurata e Al-Khums e termina em Trípoli. A capacidade projetada dessa fase
é de 2,5 milhões de metros cúbicos por dia, conforme a Britannica.
A Fase III foi concluída em 2009
e acrescentou 1.200 quilômetros adicionais de tubulações subterrâneas ao
sistema.
Parte desses novos dutos
expandiu a rede da Fase I, aumentando a capacidade total para 3,68 milhões de
metros cúbicos diários.
A outra parte levou água pela
primeira vez até Tobruk, vinda do oásis de Al-Jaghbūb, exigindo a construção de
um reservatório ao sul da cidade e mais 500 quilômetros de tubulação.
Duas fases
adicionais, GMR 4 e GMR 5, ainda estão planejadas para conectar regiões mais
remotas ao sistema central.
Os
reservatórios: lagos artificiais escavados na rocha
Os nós de distribuição do
sistema não são caixas d’água comuns.
São reservatórios abertos
escavados diretamente no solo e na rocha, revestidos com asfalto para evitar
infiltração e evaporação.
O maior deles, localizado em Ajdābiyā, tem
mais de um quilômetro de diâmetro e capacidade para 24 milhões de metros
cúbicos de água, segundo a Britannica.
São lagos artificiais no meio do deserto,
alimentados por tubulações que vêm de centenas de quilômetros abaixo da areia
do Saara.
Essa escolha de engenharia tem vantagens
práticas. Reservatórios abertos são mais fáceis de inspecionar e manter do que
tanques fechados em escala similar.
Permitem monitorar a qualidade da água
visualmente e acessar o volume armazenado por múltiplos pontos de saída.
A desvantagem é a evaporação,
significativa em regiões áridas com altas temperaturas.
Num projeto
que move água fóssil de pontos sem reposição natural, cada litro evaporado é um
litro que não volta.
O que o
mundo aprendeu com essa obra
O Grande Rio Artificial não foi
construído apenas com expertise líbia.
Empresas de engenharia de vários
países participaram das diferentes fases do projeto, segundo a Britannica,
tornando-o uma referência técnica internacional em infraestrutura hídrica de
grande escala.
A logística de fabricar,
transportar e instalar 250 mil segmentos de concreto no deserto gerou
conhecimento aplicado que influenciou projetos similares em outras regiões
áridas do mundo.
O modelo também levanta questões
que países com situação hídrica parecida precisarão responder: quanto tempo
dura um aquífero fóssil sob extração intensiva?
Quando e como planejar a
transição para fontes renováveis de água, como a dessalinização, antes que o
recurso subterrâneo se esgote?
A Líbia apostou décadas e
bilhões de dólares numa solução que funciona agora mas tem prazo de validade
incerto.
Esse dilema
entre necessidade imediata e sustentabilidade de longo prazo é o legado mais
complexo que o Grande Rio Artificial deixa para o debate sobre gestão hídrica
global.
Uma obra
que ainda não terminou
Com as fases GMR 4 e GMR 5 ainda
pendentes, o projeto completo prevê conectar os campos de poços da região de
Al-Kufrah, no extremo sudeste do país, ao sistema central, além de um oleoduto
ligando poços próximos a Ghadames, no deserto ocidental, às cidades costeiras
de Al-Zāwiyah e Zuwārah.
A rede completa terá cerca de 4
mil quilômetros de tubulação e capacidade de 6,5 milhões de metros cúbicos de
água por dia, conforme a Britannica.
O contexto político da Líbia dos últimos
anos, marcado por instabilidade e conflito desde 2011, afeta o ritmo de
expansão e manutenção do sistema.
Infraestrutura dessa complexidade exige
gestão contínua, peças de reposição, pessoal técnico qualificado e estabilidade
institucional para funcionar no pleno
potencial.
O Grande Rio Artificial
sobreviveu a décadas de turbulência política, mas sua longevidade técnica
depende tanto da geologia dos aquíferos quanto da capacidade do Estado líbio de
manter o que foi construído.
Construir 4 mil quilômetros de tubulações
subterrâneas para extrair água fóssil do Saara foi uma solução de gênio ou uma
aposta irresponsável num recurso que não se renova? Outros países em situação
hídrica crítica deveriam estudar o modelo líbio ou evitá-lo? Deixe sua opinião
nos comentários.