quinta-feira, maio 28, 2026

 Mata Atlântica conectada pode triplicar absorção de carbono

Em fragmentos interligados, árvores cresceram mais e aumentou a diversidade de fungos e bactérias. pub-7552501551832151

Floresta na região de Paraty: conexão entre fragmentos contribui para aumentar a biodiversidade

Uwe Bergwitz/Getty images

Dois estudos realizados na Mata Atlântica revelaram novas facetas dos corredores ecológicos, trechos de floresta por onde animais circulam entre fragmentos de vegetação, carregando sementes que aumentam a diversidade. Uma equipe liderada por pesquisadores da Universidade de Exeter, no Reino Unido, verificou que conectar parcelas isoladas de mata em restauração pode triplicar a capacidade de estocar carbono. Ao mesmo tempo, um grupo do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP), observou um aumento na diversidade de fungos e bactérias decompositores benéficos para as plantas.

“Fragmentos conectados de mata podem absorver entre 43% e 69% mais carbono do que os mais isolados”, relata a geógrafa brasileira Thais Michele Rosan, pesquisadora em estágio de pós-doutorado na Universidade de Exeter e primeira autora de um artigo publicado em abril na revista científica Earth and Environment. Na região definida pelo estudo, oeste e litorânea, a absorção de carbono foi três vezes maior do que em outras partes da Mata Atlântica devido à umidade e à riqueza de nutrientes no solo, segundo a pesquisadora.

A equipe estimou a captura de gás carbônico entre 1986 e 2020 a partir de imagens do satélite Landsat, indicando as áreas em regeneração de todo o bioma. “Comparando as imagens ao longo do tempo é possível inferir o crescimento das árvores e quanto carbono elas capturaram nesse processo”, esclarece o biólogo Luiz Eduardo Aragão, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coautor do artigo.

“Aumentar a conectividade da floresta pode ajudar o país a se aproximar da meta de 53% de redução das emissões de carbono até 2030, estabelecida pelo Acordo de Paris”, aponta Rosan. A metodologia lhe permitiu inferir que áreas de florestas pouco conectadas podem levar, em média, cerca de 200 anos para chegar ao nível de carbono acima do solo original, enquanto nas mais conectadas o tempo pode cair para cerca de 45 anos.

A engenheira-agrônoma Simone Aparecida Vieira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que não participou do estudo, observa que as parcelas de Mata Atlântica se inserem em um mosaico de plantações, pastagens e áreas urbanas, tornando-as mais isoladas e difíceis de restaurar. Segundo ela, investigar a conectividade desse bioma fornece dados cruciais para as políticas públicas de regeneração. “A maior parte do que sabemos sobre fragmentação e efeitos de borda vem da Amazônia, onde os fragmentos costumam ser rodeados por mata e se regeneram mais rapidamente”, ressalta Vieira.


Fungos e bactérias no solo estimulam o crescimento das plantas Guilherme Martins / USP

Fungos decompositores
A conectividade florestal tem outro efeito positivo: ela aumenta a diversidade de fungos e bactérias do solo, que por sua vez estimulam o crescimento das plantas, segundo estudo publicado em março na revista científica Molecular Ecology.

“A população de fungos e bactérias decompositores, que transformam as moléculas da matéria orgânica e liberam nutrientes para as plantas, aumentou entre 5% e 13%”, conta Guilherme Martins, pesquisador de doutorado do Cena-USP e primeiro autor do estudo. Segundo ele, a diferença pode parecer pequena, mas gera impactos significativos ao longo do tempo.

“A concentração de nitrogênio produzido por bactérias, um nutriente essencial para as plantas, aumentou em até 30%”, acrescenta Martins. Segundo ele, os fungos decompositores costumam liberar uma substância grudenta chamada glomalina, que agrega as partículas do solo, deixando-o mais permeável à água e ao oxigênio, além de facilitar a atividade dos microrganismos do solo.

“Além disso, a população de patógenos que vive no solo e nas plantas diminuiu em cerca de 2% a 5%”, afirma o pesquisador. Isso aconteceu porque fungos e bactérias benéficos estimulam cooperações positivas entre si, o que acaba diminuindo a população de patógenos. Um exemplo é a bactéria Bacillus subtilis, que ataca o fungo Rhizoctonia solani, responsável pela podridão das raízes.

Segundo Vieira, esse é um dos primeiros trabalhos a avaliar o efeito da conectividade na comunidade de fungos e bactérias da Mata Atlântica. “São seres vivos fundamentais para o ambiente, mas costumam ser negligenciados nos estudos de biodiversidade.”

Martins e sua equipe visitaram áreas de floresta em regeneração nos municípios de Piracicaba, Rio Claro, Araras e Itirapina, no interior de São Paulo, e coletaram amostras de solo e serrapilheira das quais extraíram DNA para identificar as espécies de fungos e bactérias. Assim como Rosan e equipe, eles avaliaram os diferentes níveis de fragmentação usando imagens do satélite Landsat.

“Inicialmente, o impacto dos fungos e bactérias é pequeno”, relata Martins. Segundo ele, conforme as árvores crescem, pássaros e outros animais começam a trazer mais sementes de fragmentos próximos. As novas espécies, por sua vez, fornecem alimentos mais variados para os fungos decompositores. “O efeito desses organismos se torna mais intenso depois de 15 a 20 anos, quando as florestas restauradas começam a ficar mais parecidas com florestas maduras.”

“Os resultados desses dois trabalhos destacam que é fundamental conectar as florestas, permitindo que elas recuperem suas funções ecológicas por meio da ação conjunta das plantas, do solo e dos microrganismos

Projeto
Biodiversidade do solo como o papel central dos feedbacks planta-solo em sistemas agroflorestais amazônicos (nº 22/05561-0); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisadora responsável Tsai Siu Mui (USP); Bolsista Guilherme Lucio Martins; Investimento R$ 350.283,20.

Artigos científicos
MARTINS, G. L. et alConnectivity and Age of Restored Atlantic Forest Fragments Drives Composition and Functionality of the Fungal Community in the Leaf Litter Layer
Molecular Ecology. 24 mar 2026.
ROSAN, M. T. 
Forest connectivity boosts carbon recovery in regenerating Atlantic ForestsCommunications Earth & Environment. 9 abr. 2026.

sexta-feira, maio 22, 2026

Estudos de genética revelam como javalis urbanos e rurais estão se dividindo em populações biológicas distintas na Europa

Por Anne Silva 18 de maio de 2026

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InicioMeio Ambiente›Estudos de genética revelam como javalis urbano…

O javali possui uma capacidade extraordinária de digerir celulose pura e metabolizar toxinas vegetais que seriam fatais para a maioria dos outros mamíferos de grande porte. Essa impressionante resiliência metabólica, no entanto, é apenas uma faceta de sua impressionante flexibilidade evolutiva. Nos últimos anos, esses animais deixaram de ser meros visitantes sazonais das periferias urbanas para se transformarem em verdadeiros cidadãos das metrópoles europeias. Essa transição drástica de habitat não alterou apenas a rotina de busca por alimento e os horários de descanso das varas de javalis. Cientistas confirmam que as pressões do ambiente construído pelo ser humano estão provocando modificações profundas na própria estrutura do ácido desoxirribonucleico dessas populações selvagens.

Durante muito tempo, vigorou o consenso no meio acadêmico e na gestão pública de que os javalis encontrados em praças, parques lineares e calçadas de grandes centros urbanos eram indivíduos dispersos do meio rural. Acreditava-se que esses mamíferos realizavam incursões temporárias em busca de restos de comida fácil e depois retornavam para as florestas nativas ou áreas agrícolas circundantes. Contudo, análises moleculares recentes viraram essa hipótese do avesso. Estudos indicam que os animais estabelecidos dentro dos limites das cidades não estão mais trocando genes de forma contínua com seus parentes das florestas vizinhas. Na verdade, eles estão formando núcleos populacionais geneticamente isolados e com características biológicas próprias, marcando um capítulo singular na zoologia contemporânea.

O isolamento na selva de pedra

Para compreender a magnitude dessa divisão biológica, pesquisadores de instituições internacionais de ecologia e vida silvestre realizaram uma varredura minuciosa no perfil genético de cerca de 400 animais em cidades de grande porte como Barcelona e Berlim. Ao mapear os marcadores moleculares de espécimes coletados tanto nas zonas estritamente urbanas quanto nas regiões rurais adjacentes, os cientistas encontraram um padrão de diferenciação claro e inesperado. A divergência genética entre os dois grupos é tão marcante que permite aos especialistas identificar, com precisão quase absoluta através de exames laboratoriais, se um indivíduo pertence ao ecossistema urbano ou se é nativo de áreas naturais preservadas. Cursos ecologia

Essa quebra no fluxo de genes ocorre devido a uma combinação de barreiras físicas e comportamentais. Estradas de alta rodagem, linhas ferroviárias, cercamentos industriais e a própria densidade das construções funcionam como verdadeiras muralhas ecológicas. Embora o javali seja uma espécie capaz de caminhar dezenas de quilômetros em uma única noite, o risco associado à travessia dessas infraestruturas fragmentadas reduz drasticamente o trânsito de indivíduos entre o campo e a cidade. Com o passar das gerações, os indivíduos que decidiram permanecer nos nichos urbanos começaram a se reproduzir prioritariamente entre si, fixando variantes genéticas específicas que os distinguem de forma definitiva dos espécimes rurais.

Adaptação acelerada e seleção artificial humana

O ambiente urbano funciona como um laboratório evolutivo acelerado de alta intensidade. Enquanto no meio florestal os animais estão sujeitos à pressão de predadores naturais, à escassez sazonal de frutos e à caça regulamentada, as cidades oferecem um cenário completamente oposto. Nelas, há abundância constante de resíduos orgânicos calóricos, fontes artificiais de água ao longo de todo o ano e uma ausência quase total de ameaças físicas diretas. Essa transição abrupta de nicho ecológico exige que o genoma dos animais responda de maneira rápida para garantir a sobrevivência em condições antrópicas.

Cursos e Conforme apontam investigações publicadas no periódico internacional  Science of the Total Environment, a inteligência e o oportunismo característicos da espécie desempenham um papel central nesse processo evolutivo. Os javalis que apresentam mutações genéticas ligadas a comportamentos menos ariscos e a uma maior tolerância à presença humana levam uma vantagem adaptativa considerável nas cidades. Animais excessivamente agressivos ou assustados tendem a sofrer acidentes de trânsito ou são capturados e removidos com maior frequência pelas autoridades de controle. Por outro lado, os indivíduos mais dóceis e ousados conseguem acessar com mais facilidade as fontes de alimento urbano, reproduzem-se mais e transmitem essas características genéticas favoráveis para suas respectivas ninhadas.  Ciência cologia

Implicações profundas para a ambiental

A descoberta de que os javalis das cidades formam uma unidade biológica independente altera de forma estrutural as políticas públicas de manejo de fauna. Os planos tradicionais de contenção baseados na suposição de que bastava fechar os pontos de entrada periféricos para esvaziar os núcleos urbanos tornaram-se obsoletos diante das evidências genéticas. Como as populações metropolitanas são autossustentáveis e não dependem do fluxo migratório vindo do campo, as estratégias de controle precisam ser desenhadas especificamente para o interior do tecido  urbano. Monitoramento ambiental.

A gestão integrada dessas populações exige ações sofisticadas que vão além da simples remoção física ou do abate de espécimes. Especialistas em conservação alertam para a necessidade urgente de remodelar o design urbano e os hábitos comunitários. Isso envolve a instalação de lixeiras à prova de animais silvestres, a fiscalização rigorosa contra o fornecimento voluntário de alimentos por parte da população e a manutenção de corredores verdes internos de forma monitorada. Sem um controle baseado em dados de biologia molecular, as cidades continuarão a alimentar involuntariamente um processo de domesticação involuntária e proliferação desordenada que pode intensificar os conflitos entre seres humanos e a vida selvagem.

O espelho evolutivo das nossas cidades

A transformação genética observada nos javalis europeus serve como um alerta contundente sobre o impacto profundo da atividade humana na biosfera. O crescimento das manchas urbanas não está apenas suprimindo habitats e isolando ecossistemas nativos, mas também operando como uma força seletiva sem precedentes na história do planeta. As cidades estão reescrevendo o código da vida de grandes mamíferos terrestres, moldando criaturas que se adaptam perfeitamente às nossas estruturas de concreto e resíduos. Guias ecossistemas

Esse fenômeno biológico convida a uma reflexão urgente sobre a urgência de planejarmos os espaços urbanos do futuro sob a ótica da coexistência interespécies. Compreender que a fauna silvestre responde geneticamente às nossas ações reforça a responsabilidade de desenvolver políticas de sustentabilidade que prevejam a presença desses animais. A  ciência demonstra de forma inequívoca que a natureza não é um elemento estático que recua diante do avanço das calçadas, mas uma força dinâmica que se transforma para ocupar todos os espaços disponíveis. Cabe à sociedade decidir se essa nova convivência será pautada pelo conflito contínuo ou pelo manejo científico inteligente e harmonioso.

Pesquisa ambiental

Para acompanhar mais estudos sobre ecologia e o impacto das cidades na fauna global, consulte os relatórios de biodiversidade urbana disponíveis na Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos.

quarta-feira, maio 13, 2026

Nasce primeiro filhote de kākāpō após quatro anos e reacende esperança contra extinção.

Por Bruno Sznajderman11/05/2026 às 16:16

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Os kākāpō não voam, possuem hábitos noturnos, sua reprodução ocorre a cada dois a quatro anos e são monitorados pelo Departamento de Conservação da Nova Zelândia. (Foto: Wikimedia Commons)

 

O primeiro filhote de kākāpō, papagaio da Nova Zelândia considerado uma das aves mais raras do mundo, nasceu após quatro anos sem registros de reprodução. O animal, batizado de Tiwhiri, nasceu em 14 de fevereiro, e se junta aos outros cerca de 230 indivíduos da espécie.

Os kākāpō não voam, possuem hábitos noturnos, sua reprodução ocorre a cada dois a quatro anos e são monitorados pelo Departamento de Conservação da Nova Zelândia, órgão também responsável pelo programa de recuperação da ave

kākāpō, papagaio em extinção na Nova Zelândia. (Foto: Wikimedia Commons )

A principal condição para o sucesso reprodutivo do animal é a frutificação de árvores nativas, como o rimu (Dacrydium cupressinum), encontradas por todo o país.

Além da demora da reprodução, a taxa de eclosão (percentual de ovos que efetivamente chocam) da espécie é considerada baixa; nesta temporada, dos 187 ovos encontrados, apenas 74 são férteis. Desses, nem todos eclodem ou sobrevivem até a fase da emplumação.

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Kākāpō: programa de conservação faz população da ave rara voltar a crescer

Por mais que os principais órgãos governamentais tenham sucesso no auxílio à reprodução da espécie, o kākāpō ainda é considerado um animal criticamente ameaçado de extinção, embora a situação já tenha estado pior no passado.

Nos anos 70, por exemplo, havia somente cerca de 50 animais da espécie. O número foi crescendo, principalmente após a criação do Programa de Recuperação do Kākāpō, em 1995.

Hoje, o Departamento de Conservação da Nova Zelândia monitora 236 kākāpō adultos vivos. Esse monitoramento é realizado por meio de um pequeno transmissor presente em cada ave, como uma “pequena mochila”, que permite o o rastreamento dos indivíduos.

kākāpō, uma das aves mais raras que estava em extinção na Nova Zelândia. (Foto: Wikimedia Commons )

O Programa de Recuperação da espécie, além de evitar a extinção, visa garantir condições seguras para os kākāpō se reproduzirem e prosperarem em seu habitat natural.

O local de maior foco é a Ilha Âncora de Pukenui, local de nascimento de Tiwhiri. Livre de predadores, a ilha é repleta de câmeras instaladas em ninhos, que permitem a transmissão em tempo real do nascimento dos filhotes e, segundo as lideranças dos grupos de preservação da espécie, ajudam na arrecadação de donativos e na conscientização pública sobre a extinção animal.

“A câmera kākāpō é uma ótima maneira de as pessoas verem a conservação em tempo real e fazerem sua própria contribuição para a natureza a partir de casa, do escritório ou de qualquer lugar do mundo”, afirma Tãne Davis, representante do Grupo de Recuperação kākāpō.

Reprodução assistida ajuda a salvar uma das aves mais raras do planeta

Da mesma forma que cada passo é monitorado pelos especialistas, todo o processo de reprodução é assistido, acompanhado e intervencionado. Isto não ocorre apenas para a garantia do sucesso reprodutivo mas também para a preservação da diversidade genética.

Esse processo ocorreu com Tiwhiri, que foi incubado pela fêmea Yasmin. Seu ovo havia sido retirado do ninho da mãe biológica, que já tinha quatro ovos férteis, e transferido para o de Yasmin, que não possuía nenhum ovo viável.

O processo de manejo, segundo o Departamento de Conservação, prioriza ovos e filhotes com menor representatividade genética e é essencial para evitar o enfraquecimento da espécie no longo prazo.

Após o acasalamento, o macho não participa da criação, e cerca de uma semana depois a fêmea dá início à postura (processo de colocação dos ovos). Elas podem colocar até cinco, intercalados em um período de três dias. Em seguida, o processo de incubação dura aproximadamente um mês.

Com plumagem verde, olhos posicionados para a frente e bico cinza, a espécie tem um peso maior do que os papagaios mais comuns e tem uma expectativa de vida que chega aos 100 anos.

Papagaio kākāpō. (Foto: Wikimedia Commons )

“É preciso um esforço coletivo para reverter a situação e trazer o kākāpō de volta da beira da extinção. Somos gratos por todo o apoio demonstrado ao longo dos anos por pessoas interessadas em fazer a sua parte pela natureza”, completa Tãne.

sábado, maio 09, 2026

 que matou os últimos mamutes que viveram na Terra?

Há muito tempo, os pesquisadores pensavam que a consanguinidade havia causado um colapso genético na última população de mamutes, mas uma nova análise do DNA desses animais diz o contrário.

FOTO DE ILLUSTRATION BY BETH ZAIKEN

POR RILEY BLACK

PUBLICADO 2 DE MAI. DE 2025, 07:00 BRT

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A última população de mamutes-lanosos (na ilustração acima) viveu na russa Ilha Wrangel até sua extinção, há cerca de 4 mil anos. Anteriormente, muitos pesquisadores teorizaram que a consanguinidade provocou um colapso genético na população, mas uma análise recente do DNA mostra um quadro mais complicado.

A última espécie de mamutes a viver na Terra foi a dos mamutes-lanosos, que viveram em uma pequena ilha por milhares de anos depois que seus parentes com presas foram extintos no continente. Os animais desgrenhados chegaram à Ilha Wrangel, uma faixa de terra de cerca de 150 Km de comprimento na costa da Sibéria (na Rússia), há cerca de 10 mil anos – o que restou de uma espécie que havia se espalhado por grande parte do Hemisfério Norte. 

Mas esses mamutes também não sobreviveram. Há cerca de 4 mil anos, os últimos mamutes-lanosos morreram e levaram a espécie à extinção para sempre. Ninguém sabe ao certo por que os mamutes da Ilha Wrangel acabaram desaparecendo

Análises genéticas recentes, no entanto, indicam que a severa contração da população de mamutes por volta dessa época deixou os animais geneticamente vulneráveis em um mundo em rápida mudança. As mutações que os mamutes acumularam por meio de cruzamentos consanguíneos provavelmente não os mataram, mas foram um fator que contribuiu para uma extinção que se estendeu por milhares de anos.

No novo estudo, a geneticista Patrícia Pečnerová, da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, e seus colegas documentam as mudanças genéticas que esse grupo de mamutes-lanosos sofreu antes de sua morte. Os novos dados, publicados no mês passado na revista Cell, representam o capítulo final de uma história de extinção que vinha se desenrolando muito antes de os mamutes chegarem ao seu último refúgio.

“A extinção final dos mamutes na Ilha Wrangel é apenas a última etapa de uma longa cadeia de eventos que levou ao desaparecimento da espécie”, diz Pečnerová, que também é exploradora da National Geographic.

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Humanos ou mudanças climáticas?

Os primeiros mamutes-lanosos evoluíram há cerca de 800 mil anos, espalhando-se até a Espanha pré-histórica, a oeste, e a região dos Grandes Lagos da América do Norte, a leste, durante seu apogeu. A expansão global dos mamutes-lanosos pode ser atribuída ao ambiente peculiar que os herbívoros gigantes preferiam. 

Planícies abertas e gramadas, chamadas estepes dos mamutes, ampliaram sua área de distribuição durante as partes mais frias da Era do Gelo, quando as geleiras cobriam uma parte maior do planeta. Os mamutes-lanosos eram herbívoros que prosperavam nesses habitats, em contraste com os mastodontes elefantinos que preferiam florestas e se saíram melhor nos períodos interglaciais mais quentes.

Quando as geleiras recuaram mais uma vez e o mundo começou a se aquecer, há cerca de 11700 anos, o habitat dos mamutes-lanudos começou a encolher e a se retirar em direção aos polos. Os humanos antigos também caçavam mamutes em algumas partes da área de distribuição dos animais. Além disso, os animais levavam muito tempo para se reproduzir. Essas pressões combinadas causaram o colapso da maioria das populações de mamutes.

“Embora ainda haja muita discussão sobre o papel das mudanças climáticas e da caça humana”, afirma Pečnerová, "o consenso atual é que ambas contribuíram para a extinção". A extinção dos mamutes-lanosos não é sinônimo da morte do último mamute da Ilha Wrangel, mas parte de um processo que se desenrolou ao longo de milhares de anos, à medida que o mundo mudava ao redor deles. hem.

Os ossos de mamute, semelhantes a esta presa e crânio parcial na Ilha Bolshoy Lyakhovsky, na costa russa, podem ser uma fonte de DNA antigo que os pesquisadores podem extrair e analisar.

FOTO DE EVEGENIA ARBUGAEVA, NAT GEO IMAGE COLLECTION

Os últimos mamutes sobreviventes

Os mamutes da Ilha Wrangel, na região siberiana da Rússia, foram os últimos sobreviventes. Os animais representam um caso especial: a extinção dos últimos membros de uma espécie que persistiu em um refúgio, lidando com pressões diferentes das de seus antecessores no continente. 

Um clima global mais quente e úmido fez com que a estepe dos mamutes encolhesse em direção ao polo e, portanto, o fato de os mamutes terem chegado à Ilha de Wrangel é um sinal de mudança climática antiga

No entanto, a mudança climática por si só não levou os mamutes à extinção, e não há nenhuma indicação de que os últimos mamutes tenham sido caçados por humanos. Ao analisar o DNA dos mamutes extraído de ossos e dentes, os geneticistas tentaram descobrir e entender por que a última população sucumbiu

Os pesquisadores por trás do novo estudo exploraram o destino dos últimos mamutes por meio de 21 genomas de mamutes-lanosos de diferentes períodos de tempo, representando tanto a população da Ilha de Wrangel quanto os mamutes anteriores do continente. Pesquisas anteriores sugeriram que os mamutes da Ilha Wrangel estavam tão isolados que mutações genéticas prejudiciais se acumularam rapidamente entre a população. 

Nesse cenário, os mamutes acumularam tantas mutações por meio da consanguinidade que não conseguiam mais produzir descendentes saudáveis em número suficiente para a sobrevivência da população. No entanto, quando Pečnerová e seus coautores analisaram os genes dos mamutes, descobriram um caminho mais complicado para a extinção.

“Parece que toda a população começou com no máximo oito indivíduos reprodutores, mas aumentou rapidamente para algumas centenas”, explica Pečnerová. A genética dos mamutes reflete esse gargalo e expansão. 

“Uma população de mega herbívoros de reprodução lenta que sobreviveu por 6 mil anos foi iniciada por menos animais do que se pode contar com as duas mãos”, observa ela, o que é um cenário mais extremo do que os pesquisadores esperavam.

linha do tempo para as últimas populações de mamutes na Ilha de Wrangel, apresentada no novo artigo, é “uma oportunidade fantástica de observar como os genomas mudaram nessa população pequena e isolada”, diz Rebekah Rogers, geneticista da Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, nos Estados Unidos, que não participou do estudo.

Os genomas dos mamutes indicam que, apesar da consanguinidade, a população da ilha logo se estabilizou e até começou a eliminar mutações prejudiciais ao longo do tempo. “Fiquei muito surpresa com a estabilidade genética da população”, comenta Pečnerová. Os mamutes conseguiram sobreviver por cerca de 200 gerações antes de serem extintos. Em vez de diminuírem, os animais estavam se mantendo firmes quando subitamente caíram em extinção.

“A história que contávamos a nós mesmos, que escrevi em minha tese de doutorado e apresentei em conferências, estava errada”, afirma Pečnerová. Os últimos mamutes-lanosos não sofreram um colapso genético. Os herbívoros sofreram os efeitos da consanguinidade, mas isso, por si só, não parece tê-los levado à extinção. 

(Sobre Animais e Ciência, leia também: Será mesmo um lobo-terrível? Como os novos filhotes “extintos” se comparam aos lobos reais)

Uma ligação consanguínea ou o que será que levou à extinção dos mamutes?

Os dados genéticos não apontam o tipo de pressão fatal que acabou com os mamutes da Ilha Wrangel, mas sugerem que o declínio foi rápido

Um fato a ser considerado é que os seres humanos só chegaram à Ilha Wrangel quatro séculos após a morte dos últimos mamutes. Os mamutes podem ter morrido porque não conseguiram acompanhar as mudanças ambientais ou os surtos de doenças, mas essas mudanças são difíceis de rastrear por meio de um registro fóssil limitado.

Embora a última população de mamutes tenha se estabilizado, os autores do novo estudo não podem descartar totalmente as consequências genéticas da consanguinidade. As mutações ainda poderiam ter deixado os mamutes vulneráveis a outras pressões e, mesmo que a população tivesse se mantido por mais tempo, poderiam ter sido persistentes demais para que os mamutes sobrevivessem em um local tão isolado. 

Os eventos de extinção são muito mais complicados do que apenas um fator”, afirma Rogers, observando que as mudanças climáticas, as mudanças nas fontes de alimentos, as secas, as tempestades, as doenças ou outros fatores podem ter contribuído. As mutações prejudiciais entre os mamutes não os ajudaram, ela observa, “mas qualquer afirmação de que os mamutes desapareceram apenas por causa de seus genomas não reflete a história completa”.

Em vez de haver um único evento ou pressão que acabou com o mamute-lanoso, sua extinção ocorreu por meio de milhares de anos de mudanças climáticas e ambientais, caça humana e, por fim, as consequências de passar por um gargalo genético. Esses herbívoros peludos estavam se agarrando a fragmentos de habitat à medida que o clima e os ambientes da Terra mudavam

As consequências genéticas de colapsos populacionais anteriores no continente significaram que a população da Ilha Wrangel pode ter sido formada por “mamutes mortos”, que seriam incapazes de resistir por tempo suficiente para que a estepe de mamutes retornasse.

domingo, maio 03, 2026

Empresa que quer ressuscitar o mamute agora mira um antílope extinto há 260 anos e precisa de mais de 100 alterações genéticas para trazer de volta um animal que só existe em cinco exemplares
Escrito porBruno Teles
Publicado em02/05/2026 às 23:45 pub-7552501551832151

A Colossal quer ressuscitar antílope extinto há 200 anos com mais de 100 alterações genéticas. Só existem 5 exemplares em museus. Entenda o projeto de desextinção.

A Colossal Biosciences incluiu o antílope-azul, extinto por volta de 1800 pela caça na África do Sul, em seu programa de desextinção, projeto que exige mais de 100 alterações genéticas a partir de genoma reconstruído de um dos cinco exemplares de museu, usando edição de DNA, células-tronco e óvulos de antílopes vivos.

A empresa de biotecnologia que já trabalha para trazer de volta o mamute-lanoso, o dodô e o lobo-terrível agora incluiu um antílope extinto na sua lista de animais que pretende “ressuscitar”. A Colossal Biosciences anunciou nesta quinta-feira (30) que o antílope-azul, espécie de nome científico Hippotragus leucophaeus descrita oficialmente em 1766 e extinta por volta de 1800 devido à caça intensiva na África do Sul, se juntou aos projetos de desextinção da empresa, que já envolvem o mamute-lanoso, o dodô, o moa, o tilacino e o lobo-terrível. O antílope-azul desapareceu em pouco mais de três décadas após ser catalogado cientificamente, vítima da colonização europeia que dizimou populações inteiras do animal para obter pele e carne.

O desafio de trazer o antílope de volta é tecnicamente complexo mas conta com vantagem que outros projetos de desextinção não possuem. A proximidade genética entre o antílope-azul e espécies vivas como o antílope-ruão e o antílope-sable facilita experimentos porque permite utilizar óvulos e estruturas reprodutivas de animais existentes como base para gerar embriões com características editadas para se aproximar da espécie extinta. A equipe da Colossal estima que recriar as características do antílope-azul exigirá mais de 100 alterações no código genético, número que reflete tanto a complexidade do processo quanto a limitação de informações disponíveis sobre um animal que só sobrevive em cinco exemplares preservados em museus ao redor do mundo.

Como a ciência pretende reconstruir um antílope que desapareceu há mais de dois séc

O ponto de partida para a desextinção do antílope-azul é um genoma detalhado reconstruído a partir de um dos cinco exemplares de museu. Apesar da escassez de material genético disponível, pesquisadores conseguiram sequenciar o DNA preservado e identificar as diferenças entre o antílope extinto e seus parentes vivos mais próximos, mapeamento que orienta quais alterações genéticas precisam ser realizadas para transformar células de um antílope-ruão em algo geneticamente semelhante ao animal que desapareceu. Estudos indicam que o antílope-azul manteve baixa diversidade genética mas permaneceu estável por aproximadamente 400 mil anos, informação que ajuda os cientistas a entender a viabilidade de recriar uma população a partir de base genética limitada.

As técnicas utilizadas combinam métodos que a biotecnologia moderna desenvolveu nas últimas décadas. A OPU (Operação de Unidade de Proteção) permite coletar óvulos de antílopes vivos com auxílio de ultrassom, através de agulha que alcança o ovário do animal, procedimento que já apresentou bons resultados em espécies como o antílope-ruão e o órix-de-cimitarra. Esses óvulos são então utilizados em fertilização laboratorial combinados com material genético editado para gerar embriões que carregam características do antílope-azul, processo que transforma um animal vivo em portador de traços de uma espécie que a humanidade exterminou há mais de 200 anos.

O papel das células-tronco na recriação do antílope extinto

As células-tronco pluripotentes representam avanço que amplia significativamente as possibilidades do projeto. Essas células têm capacidade de se transformar em diferentes tipos de tecido, o que permite aos pesquisadores realizar testes genéticos de forma controlada sem depender exclusivamente de animais vivos, reduzindo tanto o custo quanto o impacto ético de experimentos que precisam ser repetidos dezenas de vezes até que as mais de 100 alterações genéticas necessárias sejam realizadas com precisão. Para o antílope-azul, as células-tronco funcionam como laboratório intermediário onde edições genéticas são testadas e validadas antes de serem aplicadas em embriões que efetivamente gerarão um animal.

O número de alterações genéticas necessárias é indicativo da distância evolutiva entre o antílope extinto e seus parentes vivos. Mais de 100 modificações no DNA significam que cada gene relevante precisa ser identificado, editado com ferramenta de precisão como CRISPR e verificado para garantir que a mudança produza o efeito desejado sem comprometer outras funções do organismo. Um erro numa única alteração pode gerar anomalias que inviabilizam o embrião, e a margem de acerto precisa ser altíssima quando multiplicada por cem modificações simultâneas, realidade que explica por que projetos de desextinção levam anos e consomem recursos que poucos laboratórios do mundo podem bancar.

Por que a Colossal escolheu o antílope-azul entre tantas espécies extintas

A seleção do antílope não foi aleatória. A existência de parentes vivos geneticamente próximos é vantagem que espécies como o mamute-lanoso não possuem com a mesma intensidade: enquanto o elefante-asiático, parente mais próximo do mamute, divergiu há milhões de anos, o antílope-ruão e o antílope-sable compartilham ancestralidade recente com o antílope-azul, proximidade que reduz o número de alterações necessárias e aumenta a probabilidade de que os embriões editados sejam viáveis. Além disso, trabalhar com a desextinção do antílope pode gerar benefícios para a conservação de outras espécies ameaçadas como o saiga, o adax e a gazela-dama, animais que enfrentam risco semelhante ao que extinguiu o antílope-azul.

O antílope-azul também oferece cenário de reintrodução mais viável do que outras espécies do portfólio da Colossal. As regiões da África do Sul onde o animal vivia ainda existem e podem ser restauradas com apoio de organizações ambientais que já atuam na recuperação de habitats, diferentemente do caso do mamute-lanoso que precisaria de ecossistema ártico que o aquecimento global está transformando rapidamente. Para a empresa, o antílope-azul combina viabilidade técnica com impacto conservacionista que justifica o investimento e que demonstra que a desextinção pode servir à preservação de espécies vivas além de recuperar as que desapareceram.

O que falta para o antílope-azul voltar a existir

Apesar do otimismo da equipe, obstáculos técnicos significativos permanecem no caminho da desextinção do antílope. Métodos como fertilização in vitro e transferência nuclear precisam atingir nível de precisão que projetos com outras espécies ainda não alcançaram plenamente, e cada etapa do processo, da edição genética à gestação em barriga de aluguel de antílope-ruão, envolve variáveis biológicas que a ciência controla apenas parcialmente. Embriões já estão em desenvolvimento e a edição genética avança para etapas finais, mas transformar embrião em animal saudável que sobreviva fora do laboratório é salto que nenhum projeto de desextinção completou até agora.

O objetivo declarado é reintroduzir na natureza um animal muito próximo do antílope-azul em regiões onde ele habitava na África do Sul. Ainda não há garantias de que o resultado final será idêntico à espécie original, porque mesmo com mais de 100 alterações genéticas alguns traços comportamentais e adaptativos podem não ser reproduzíveis apenas por edição de DNA. A proposta que parecia distante começa a se tornar mais concreta à medida que a tecnologia avança, e se a Colossal conseguir trazer de volta um antílope que a humanidade extinguiu há mais de dois séculos, a mensagem será tão poderosa quanto a conquista científica: somos capazes de corrigir erros que nossos antepassados cometeram contra a biodiversidade.

E você, acha que devemos tentar ressuscitar espécies extintas ou é melhor focar na preservação das que ainda existem? Deixe sua opinião nos comentários.