Mata Atlântica conectada pode triplicar absorção de carbono
Em fragmentos interligados, árvores
cresceram mais e aumentou a diversidade de fungos e bactérias. pub-7552501551832151
Floresta na região de Paraty: conexão entre fragmentos contribui para aumentar a biodiversidade
Uwe
Bergwitz/Getty images
Dois
estudos realizados na Mata Atlântica revelaram novas facetas dos corredores
ecológicos, trechos de floresta por onde animais circulam entre fragmentos de
vegetação, carregando sementes que aumentam a diversidade. Uma equipe liderada
por pesquisadores da Universidade de Exeter, no Reino Unido, verificou que
conectar parcelas isoladas de mata em restauração pode triplicar a capacidade
de estocar carbono. Ao mesmo tempo, um grupo do Centro de Energia Nuclear na
Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP), observou um aumento na
diversidade de fungos e bactérias decompositores benéficos para as plantas.
“Fragmentos
conectados de mata podem absorver entre 43% e 69% mais carbono do que os mais
isolados”, relata a geógrafa brasileira Thais Michele Rosan, pesquisadora em
estágio de pós-doutorado na Universidade de Exeter e primeira autora de um
artigo publicado em abril na revista científica Earth and Environment.
Na região definida pelo estudo, oeste e litorânea, a absorção de carbono foi
três vezes maior do que em outras partes da Mata Atlântica devido à umidade e à
riqueza de nutrientes no solo, segundo a pesquisadora.
A
equipe estimou a captura de gás carbônico entre 1986 e 2020 a partir de imagens
do satélite Landsat, indicando as áreas em regeneração de todo o bioma.
“Comparando as imagens ao longo do tempo é possível inferir o crescimento das
árvores e quanto carbono elas capturaram nesse processo”, esclarece o biólogo
Luiz Eduardo Aragão, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e
coautor do artigo.
“Aumentar
a conectividade da floresta pode ajudar o país a se aproximar da meta de 53% de
redução das emissões de carbono até 2030, estabelecida pelo Acordo de Paris”,
aponta Rosan. A metodologia lhe permitiu inferir que áreas de florestas pouco
conectadas podem levar, em média, cerca de 200 anos para chegar ao nível de
carbono acima do solo original, enquanto nas mais conectadas o tempo pode cair
para cerca de 45 anos.
A
engenheira-agrônoma Simone Aparecida Vieira, da Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp), que não participou do estudo, observa que as parcelas de
Mata Atlântica se inserem em um mosaico de plantações, pastagens e áreas
urbanas, tornando-as mais isoladas e difíceis de restaurar. Segundo ela,
investigar a conectividade desse bioma fornece dados cruciais para as políticas
públicas de regeneração. “A maior parte do que sabemos sobre fragmentação e
efeitos de borda vem da Amazônia, onde os fragmentos costumam ser rodeados por
mata e se regeneram mais rapidamente”, ressalta Vieira.
Fungos e bactérias no solo estimulam o crescimento das plantas Guilherme
Martins / USP
Fungos decompositores
A
conectividade florestal tem outro efeito positivo: ela aumenta a diversidade de
fungos e bactérias do solo, que por sua vez estimulam o crescimento das
plantas, segundo estudo publicado em março na revista científica Molecular
Ecology.
“A
população de fungos e bactérias decompositores, que transformam as moléculas da
matéria orgânica e liberam nutrientes para as plantas, aumentou entre 5% e 13%”,
conta Guilherme Martins, pesquisador de doutorado do Cena-USP e primeiro autor
do estudo. Segundo ele, a diferença pode parecer pequena, mas gera impactos
significativos ao longo do tempo.
“A
concentração de nitrogênio produzido por bactérias, um nutriente essencial para
as plantas, aumentou em até 30%”, acrescenta Martins. Segundo ele, os fungos
decompositores costumam liberar uma substância grudenta chamada glomalina, que
agrega as partículas do solo, deixando-o mais permeável à água e ao oxigênio, além
de facilitar a atividade dos microrganismos do solo.
“Além
disso, a população de patógenos que vive no solo e nas plantas diminuiu em
cerca de 2% a 5%”, afirma o pesquisador. Isso aconteceu porque fungos e
bactérias benéficos estimulam cooperações positivas entre si, o que acaba
diminuindo a população de patógenos. Um exemplo é a bactéria Bacillus subtilis,
que ataca o fungo Rhizoctonia solani, responsável pela podridão das
raízes.
Segundo
Vieira, esse é um dos primeiros trabalhos a avaliar o efeito da conectividade
na comunidade de fungos e bactérias da Mata Atlântica. “São seres vivos
fundamentais para o ambiente, mas costumam ser negligenciados nos estudos de
biodiversidade.”
Martins
e sua equipe visitaram áreas de floresta em regeneração nos municípios de
Piracicaba, Rio Claro, Araras e Itirapina, no interior de São Paulo, e
coletaram amostras de solo e serrapilheira das quais extraíram DNA para
identificar as espécies de fungos e bactérias. Assim como Rosan e equipe, eles
avaliaram os diferentes níveis de fragmentação usando imagens do satélite
Landsat.
“Inicialmente,
o impacto dos fungos e bactérias é pequeno”, relata Martins. Segundo ele,
conforme as árvores crescem, pássaros e outros animais começam a trazer mais
sementes de fragmentos próximos. As novas espécies, por sua vez, fornecem
alimentos mais variados para os fungos decompositores. “O efeito desses
organismos se torna mais intenso depois de 15 a 20 anos, quando as florestas
restauradas começam a ficar mais parecidas com florestas maduras.”
“Os resultados desses dois trabalhos destacam que é fundamental conectar as florestas, permitindo que elas recuperem suas funções ecológicas por meio da ação conjunta das plantas, do solo e dos microrganismos
Projeto
Biodiversidade
do solo como o papel central dos feedbacks planta-solo em sistemas
agroflorestais amazônicos (nº 22/05561-0); Modalidade Bolsa
de Doutorado; Pesquisadora responsável Tsai Siu Mui
(USP); Bolsista Guilherme Lucio Martins; Investimento R$ 350.283,20.
Artigos científicos
MARTINS, G. L. et al. Connectivity and Age of Restored
Atlantic Forest Fragments Drives Composition and Functionality of the Fungal
Community in the Leaf Litter Layer. Molecular Ecology.
24 mar 2026.
ROSAN, M. T. Forest connectivity boosts carbon
recovery in regenerating Atlantic Forests. Communications
Earth & Environment. 9 abr. 2026.



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