segunda-feira, junho 29, 2026

 A cidade que guarda a maior cachoeira do Mato Grosso do Sul com 156 metros de queda livre e uma beleza natural que parece de outro mundo

pub-7552501551832151

Por Maura Pereira 27/06/2026 Em Cidades, Turismo

 

https://www.correiobraziliense.com.br/cbradar/wp-content/uploads/2026/01/aaa-33.png

Pouca gente sabe que a queda d’água mais alta do Mato Grosso do Sul não fica em Bonito. Fica em Bodoquena, vizinha menos famosa que abriga a única unidade de conservação federal do estado e um complexo de cachoeiras escondidas na mata.

O portal de entrada do Pantanal escondido na serra

Bodoquena fica no sudoeste sul-mato-grossense, a 264 km de Campo Grande e a 70 km de Bonito. O nome vem do tupi-guarani e significa “nascente em cima da serra”. A cidade integra um circuito turístico com Bonito, JardimMiranda e Porto Murtinho, e funciona como um dos principais acessos ao Pantanal.

O relevo calcário da Serra da Bodoquena cria um fenômeno raro: tufas calcárias que esculpem cachoeiras e barragens naturais. Por causa dessa formação, os rios da região mantêm transparência quase total, sem turbidez visível.


Mergulhe nas águas azuis de Bodoquena, onde a Serra revela paraísos naturais que renovam a alma e conectam com a natureza selvagem. // Créditos: Wikimedia Commons

O que protege o Parque Nacional da Serra da Bodoquena?

Criado em 21 de setembro de 2000, o Parque Nacional da Serra da Bodoquena tem cerca de 76.481 hectares e é administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). É a única unidade de conservação federal do estado e abrange também Bonito, Jardim e Porto Murtinho.

A área protege onças-pintadas, pumas, antas e o cascudo-cego, peixe endêmico que só existe nas grutas locais. O parque registra mais de 340 espécies de aves, 195 de mamíferos e 50 de peixes, e funciona como núcleo da Reserva da Biosfera do Pantanal declarada pela Unesco.

Como é a trilha até a Cachoeira Boca da Onça?

A Cachoeira Boca da Onça tem 156 metros de queda livre, segundo a Secretaria de Turismo de Bonito, e é a mais alta do Mato Grosso do Sul. O nome vem de uma formação rochosa na queda que lembra a boca de um felino.

O atrativo fica em uma fazenda particular dentro do município de Bodoquena, a cerca de 60 km de Bonito. A trilha principal tem 4 km, passa por oito cachoeiras e cinco paradas de banho, com uma escadaria de 886 degraus no retorno. O complexo também opera o maior rapel de plataforma do Brasil, com 90 metros de altura sobre o cânion do Rio Salobra.


Explore Bodoquena com calma: cachoeiras refrescantes, passeios de barco e belezas naturais perfeitas para dias relax no MS. // Créditos: Wikipédia

Cachoeiras Serra da Bodoquena e o Rio Betione

A poucos quilômetros do centro da cidade, a Fazenda Cachoeiras Serra da Bodoquena oferece um passeio mais leve e familiar. A trilha de 2,5 km margeia o Rio Betione e leva o visitante por oito quedas com piscinas naturais.

  • Cachoeira do Pirralho: rasa e segura, ideal para crianças e visitantes com mobilidade reduzida.
  • Passeio de bote: descida pelo leito do Rio Betione até a última cachoeira, fechando a trilha.
  • Balneário gramado: área de descanso com tirolesa, caiaque e stand up paddle inclusos.
  • Cachoeira do Fantasma: paredão de gruta onde a água desce formando uma silhueta peculiar.

O cânion do Rio Salobra e suas águas turquesa

O Rio Salobra desce a serra entre paredões de calcário que chegam a 100 metros de altura. As águas combinam tons turquesa e verde esmeralda, resultado da pureza dos calcários nas cabeceiras.

O cânion pode ser visto do alto da plataforma de rapel e em mirantes ao longo da Trilha Discovery, percurso de 7 km que margeia o paredão. É um dos pontos mais fotografados da Serra da Bodoquena.

Bodoquena atrai turistas com trilhas ecológicas e rios bicarbonatados; destino top para aventura na Serra da Bodoquena, MS. // Créditos: Wikipédia

O que se come na mesa bodoquenense?

A culinária mistura raízes pantaneiras, paraguaias e indígenas. Os restaurantes do circuito servem fartura de fazenda, geralmente acompanhada de mandioca, pequi e peixes do Rio Miranda.


  • Sopa paraguaia: bolo salgado de milho, cebola e queijo, servido no café da manhã ou como acompanhamento.
  • Chipa: pão de queijo de polvilho, quente, vendido em padarias e nas estradas da região.
  • Pacu empanado: peixe típico preparado no fubá ou no coco, presença certa nos almoços de fazenda.
  • Farofa de chipa: versão local da farofa, com pedaços de chipa torrada.

Leia também: Na Suíça, quem é pobre vive em “favelas” com uma qualidade de vida que muitas cidades pelo mundo sonham em ter.

Quando viajar para a Serra da Bodoquena?

A região tem clima tropical com verão chuvoso e inverno seco. As águas cristalinas dependem da estiagem, então o período de maio a setembro costuma render fotos mais nítidas dos rios e cachoeiras.

Como chegar a Bodoquena saindo de Campo Grande?

Bodoquena fica a 264 km de Campo Grande pela BR-060 e MS-345, cerca de 4 horas de carro. Quem chega de avião pousa em Campo Grande ou no aeroporto regional de Bonito e segue pela MS-178, com cerca de 70 km de estrada pavimentada. Há linhas diárias da viação Andorinha saindo da rodoviária da capital.

A vizinha menos famosa de Bonito

Bodoquena reúne o que o turismo de natureza tem de mais raro no Centro-Oeste: a queda d’água mais alta do estado, o único parque nacional do Mato Grosso do Sul e rios com águas que parecem retocadas. Tudo a menos de uma hora de Bonito, mas com a fila bem menor.

Você precisa atravessar a serra e conhecer Bodoquena, a cidade que guarda os 156 metros de água mais impressionantes do Centro-Oeste brasileiro..

domingo, junho 21, 2026

  •  A Líbia construiu mais de 4 mil quilômetros de tubulações subterrâneas para trazer água do Saara até cidades costeiras num projeto que o próprio governo chamou de Oitava Maravilha do Mundo
  • pub-7552501551832151Escrito Bruno Teles Publicado em15/06/2026 às 13:12 Atualizado em15/06/2026 às13:14
  • A Líbia construiu mais de 4 mil km de tubulações subterrâneas no Saara para levar água fóssil a cidades costeiras no projeto chamado de Oitava Maravilha do Mundo.

Batizado de Grande Rio Artificial, o sistema líbio de tubulações subterrâneas percorre o deserto para extrair água com até um milhão de anos de antiguidade e abastecer Trípoli, Benghazi e outras cidades do norte do país. A obra, descrita pela Britannica como o maior projeto de irrigação do mundo, começou nos anos 1980 e ainda está em expansão.

Debaixo do Saara líbio existe água. Muita água. Acumulada em aquíferos profundos ao longo de milênios, essa reserva foi descoberta na década de 1950 durante perfurações em busca de petróleo na região de Al-Kufrah. O que se encontrou no subsolo não era combustível, mas algo igualmente valioso num país árido: bilhões de metros cúbicos de água fóssil, infiltrada na rocha porosa antes do fim da última era glacial, quando o Saara ainda tinha clima temperado. Para trazer esse recurso ao litoral populoso, o governo líbio construiu uma das obras de engenharia mais ambiciosas do século XX: uma rede de tubulações subterrâneas com capacidade projetada para transportar 6,5 milhões de metros cúbicos de água por dia, conforme descreve a Britannica.

O projeto foi batizado de Grande Rio Artificial, ou GMR na sigla em inglês. Desde 1991, quando a primeira fase entrou em operação, ele abastece cidades e áreas agrícolas no norte da Líbia que antes dependiam de dessalinização e de aquíferos costeiros em declínio acelerado. O governo líbio chegou a proclamar a obra como a Oitava Maravilha do Mundo. Estudiosos e críticos são mais cautelosos com esse tipo de superlativo, mas nenhum contesta a escala da engenharia envolvida: uma rede que, completa, terá cerca de 4 mil quilômetros de tubulação percorrendo o deserto.

Água com um milhão de anos embaixo do deserto

O Sistema Aquífero de Arenito Núbio, do qual a Líbia extrai a água do Grande Rio Artificial, é um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do mundo.

A estimativa de idade da água varia entre 10 mil e 1 milhão de anos, segundo a Britannica, período em que ela ficou presa no arenito poroso sem contato com a superfície.

Essa água é chamada de fóssil justamente porque seu ciclo de recarga natural praticamente não existe nas condições climáticas atuais do Saara.

É aí que mora o nó do projeto. Um aquífero fóssil não se renova. Cada metro cúbico bombeado é um metro cúbico a menos para sempre. Funcionários líbios chegaram a afirmar, citados pela Britannica, que as reservas poderiam durar milhares de anos.

Críticos contestam essa estimativa com veemência, e alguns chegam a dizer que o sistema pode não resistir ao século XXI se a extração continuar no ritmo atual. 

A Líbia apostou num recurso finito para resolver um problema permanente, e essa equação ainda não tem resposta clara.

Como as tubulações subterrâneas foram construídas

A Fase I do projeto começou em 1983, quando a Autoridade do Grande Rio Artificial adjudicou o primeiro contrato de construção.

Centenas de poços foram perfurados a cerca de 500 metros de profundidade nos campos de Tāzirbū e Sarīr, no sul do país.

De lá, as tubulações subterrâneas conduzem a água bombeada por centenas de quilômetros até um reservatório em Ajdābiyā, de onde ela segue para Benghazi ao norte e Surt a oeste. A conclusão formal da Fase I foi celebrada em Benghazi em 1991.

Os tubos usados nessa fase foram considerados, à época, os maiores do mundo: 4 metros de diâmetro e 7 metros de comprimento cada, fabricados em concreto protendido reforçado com aço em duas fábricas construídas especificamente para o projeto dentro da própria Líbia.

Eram instalados em valas de 7 metros de profundidade com guindastes especialmente desenvolvidos, posicionados com tratores e selados com anéis de borracha gigantes e argamassa de cimento, segundo a Britannica. 

Eram 250 mil segmentos de tubulação ao longo de 1.600 quilômetros só na primeira fase.

Três fases concluídas, duas ainda em construção

  A Fase II do Grande Rio Artificial entrou em funcionamento em 1996 abastecendo Trípoli, a capital do país.

 Nesse trecho, a água vem de três campos de poços na região de Jabal al-Ḥasāwinah e percorre dois caminhos distintos: um oleoduto bombeia a água até Tarhūnah, no planalto de Nafūsah, de onde ela flui por gravidade até a planície de Al-Jifārah.

Outro segmento vai para o litoral, passa por Misurata e Al-Khums e termina em Trípoli. A capacidade projetada dessa fase é de 2,5 milhões de metros cúbicos por dia, conforme a Britannica.

A Fase III foi concluída em 2009 e acrescentou 1.200 quilômetros adicionais de tubulações subterrâneas ao sistema.

Parte desses novos dutos expandiu a rede da Fase I, aumentando a capacidade total para 3,68 milhões de metros cúbicos diários.

A outra parte levou água pela primeira vez até Tobruk, vinda do oásis de Al-Jaghbūb, exigindo a construção de um reservatório ao sul da cidade e mais 500 quilômetros de tubulação. 

Duas fases adicionais, GMR 4 e GMR 5, ainda estão planejadas para conectar regiões mais remotas ao sistema central.

Os reservatórios: lagos artificiais escavados na rocha

Os nós de distribuição do sistema não são caixas d’água comuns.

São reservatórios abertos escavados diretamente no solo e na rocha, revestidos com asfalto para evitar infiltração e evaporação.

O maior deles, localizado em Ajdābiyā, tem mais de um quilômetro de diâmetro e capacidade para 24 milhões de metros cúbicos de água, segundo a Britannica.

São lagos artificiais no meio do deserto, alimentados por tubulações que vêm de centenas de quilômetros abaixo da areia do Saara.

Essa escolha de engenharia tem vantagens práticas. Reservatórios abertos são mais fáceis de inspecionar e manter do que tanques fechados em escala similar.

Permitem monitorar a qualidade da água visualmente e acessar o volume armazenado por múltiplos pontos de saída.

A desvantagem é a evaporação, significativa em regiões áridas com altas temperaturas. 

Num projeto que move água fóssil de pontos sem reposição natural, cada litro evaporado é um litro que não volta.

O que o mundo aprendeu com essa obra

O Grande Rio Artificial não foi construído apenas com expertise líbia.

Empresas de engenharia de vários países participaram das diferentes fases do projeto, segundo a Britannica, tornando-o uma referência técnica internacional em infraestrutura hídrica de grande escala.

A logística de fabricar, transportar e instalar 250 mil segmentos de concreto no deserto gerou conhecimento aplicado que influenciou projetos similares em outras regiões áridas do mundo.

O modelo também levanta questões que países com situação hídrica parecida precisarão responder: quanto tempo dura um aquífero fóssil sob extração intensiva?

Quando e como planejar a transição para fontes renováveis de água, como a dessalinização, antes que o recurso subterrâneo se esgote?

A Líbia apostou décadas e bilhões de dólares numa solução que funciona agora mas tem prazo de validade incerto. 

Esse dilema entre necessidade imediata e sustentabilidade de longo prazo é o legado mais complexo que o Grande Rio Artificial deixa para o debate sobre gestão hídrica global.

Uma obra que ainda não terminou

Com as fases GMR 4 e GMR 5 ainda pendentes, o projeto completo prevê conectar os campos de poços da região de Al-Kufrah, no extremo sudeste do país, ao sistema central, além de um oleoduto ligando poços próximos a Ghadames, no deserto ocidental, às cidades costeiras de Al-Zāwiyah e Zuwārah.

A rede completa terá cerca de 4 mil quilômetros de tubulação e capacidade de 6,5 milhões de metros cúbicos de água por dia, conforme a Britannica.

O contexto político da Líbia dos últimos anos, marcado por instabilidade e conflito desde 2011, afeta o ritmo de expansão e manutenção do sistema.

Infraestrutura dessa complexidade exige gestão contínua, peças de reposição, pessoal técnico qualificado e estabilidade institucional para funcionar no pleno potencial

O Grande Rio Artificial sobreviveu a décadas de turbulência política, mas sua longevidade técnica depende tanto da geologia dos aquíferos quanto da capacidade do Estado líbio de manter o que foi construído.

Construir 4 mil quilômetros de tubulações subterrâneas para extrair água fóssil do Saara foi uma solução de gênio ou uma aposta irresponsável num recurso que não se renova? Outros países em situação hídrica crítica deveriam estudar o modelo líbio ou evitá-lo? Deixe sua opinião nos comentários.

segunda-feira, junho 15, 2026

Entre preservação e exploração: multas e inquéritos expõem impactos da mineração na APA de Pouso Alto

Fiscalizações da Semad e investigações do Ministério Público ocorrem enquanto Estado discute ampliar atividades extrativistas na região

pub-7552501551832151

Região da APA de Pouso Alto abriga o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros | Foto: Reprodução

Desde maio de 2001, a Área de Proteção Ambiental (APA) de Pouso Alto funciona como um cinturão de proteção da rica biodiversidade da região da Chapada dos Veadeiros. Ao todo, são 872 mil hectares que abrangem toda a área do parque nacional e municípios do entorno, como Alto Paraíso, Cavalcante e Teresina de Goiás.

Entre as diversas diretrizes da unidade está a proibição da mineração e da extração vegetal em larga escala, com o objetivo de reduzir possíveis impactos ambientais. O plano de manejo é um documento elaborado em parceria entre a Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás (Semad) e o Conselho Consultivo da APA de Pouso Alto (Conapa).

Contudo, o cenário mudou desde março de 2025, e novas alterações no manejo ameaçam a frágil estabilidade do ecossistema de uma das regiões mais biodiversas do Estado: a autorização da atividade minerária na área protegida. A Portaria nº 286/2025, da Semad, permitiu a extração de minerais como saibro, cascalho e areia em zonas anteriormente protegidas.

Conselho democrático

Segundo a titular da Semad, Andreia Vulcanis, em entrevista ao Jornal Opção, o objetivo era possibilitar a manutenção e a recuperação de estradas vicinais que cortam grande parte da área, especialmente as utilizadas por comunidades quilombolas. “Esses minerais básicos da construção civil são utilizados para arrumar as vias vicinais e estradas de terra dos municípios.”

A secretária defende que a discussão sobre mineração na APA não representa uma “indução” do governo estadual, mas uma resposta às autorizações de centenas de pesquisas minerais concedidas pela Agência Nacional de Min eração (ANM).

Secretária Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás (Semad), Andreia Vulcanis | Foto: Guilherme Alves / Jornal Opção

Essas decisões sobre alterações no manejo são tomadas em conjunto com o conselho, que reúne representantes de cinco municípios, incluindo setores públicos, privados, comunidades quilombolas e o agronegócio. “A regulação da APA é sobreposta ao plano diretor dos municípios, então estes documentos têm que conversar e dialogar, porque se não fica uma coisa estranha de uma lei falando uma coisa e outra falando outra coisa”, afirma.

Nos últimos meses, foram realizadas oficinas para ouvir as demandas da população sobre a exploração mineral. A secretária observa, porém, que alguns municípios enfrentam dificuldades para participar dos encontros realizados em Alto Paraíso, como Teresina de Goiás e Nova Roma.

Meio ambiente em risco

Entretanto, entidades ligadas à defesa do meio ambiente sustentam que o que inicialmente seria apenas a retirada de “areia para estradas” evoluiu para outras atividades extrativistas. Para Álvaro Fernando De Angelis, coordenador do Movimento SOS Chapada dos Veadeiros e colaborador do plano de manejo original, a oposição à medida se sustenta em uma justificativa central: “este território não é cenário. É sujeito”.

Dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) apontam a existência de 496 processos minerários ativos na região, sendo 63% voltados para ouro, manganês e terras raras. A contestação à portaria da Semad vai além da ampliação de determinadas atividades e questiona também a inclusão de áreas que não estariam sob jurisdição do Governo de Goiás.

Um exemplo é a Zona de Amortecimento do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, gerida pelo ICMBio, órgão federal, e protegida pela UNESCO, o que configuraria uma violação de competência federativa. “O Ministério Público Federal já reconheceu formalmente a questão”, apontou.

O que assistimos é a captura da política ambiental: decisões técnicas substituídas por decisões de balcão, conselhos esvaziados, ciência ignorada.

Coordenador do movimento SOS Chapada dos Veadeiros, Álvaro Fernando De Angelis | Foto: TV Assembleia

O risco, segundo ambientalistas, é a ampliação do desmatamento e da poluição, agravando problemas ambientais já existentes na região. A principal preocupação é o que chamam de “bomba de carbono”: a liberação de carbono fóssil decorrente da mineração, que pode atingir um volume estimado de 1.200 toneladas por hectare, equivalente a oito vezes a biomassa aérea da Floresta Amazônica.

Para as comunidades locais, a biodiversidade não é recurso: é sistema de vida. O povo Kalunga — maior território quilombola do Brasil, primeiro TICCA reconhecido pela ONU no país — construiu ao longo de três séculos um modo de existência que depende das águas, dos ciclos do Cerrado e da integridade do território.

Além disso, a destruição de veredas e campos úmidos comprometeria as nascentes que alimentam três grandes bacias hidrográficas: Tocantins, São Francisco e Paraná.

O especialista ainda denuncia que a liberação mineral ocorreu sem a consulta livre, prévia e informada às comunidades quilombolas Kalunga e ao povo Avá-Canoeiro, violando a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Para ele, o modo de vida dessas comunidades e a economia do turismo de natureza dependem integralmente da integridade do Cerrado.

Avanços nas autuações

Paralelamente, uma nova atualização do plano de manejo pode ampliar ainda mais o espaço destinado a atividades extrativistas, sobretudo diante do avanço da mineração em Goiás.

Autos ambientais da Semad também indicam a ocorrência de danos ambientais associados a algumas dessas atividades. Uma autuação lavrada em 2025, no valor de R$ 600 mil, foi obtida pelo Jornal Opção.

A ação foi movida contra a empresa Mineração Pedra Linda Ltda. por realizar a extração de cassiterita sem licenciamento ambiental em Cavalcante. A empresa teria obtido autorização prévia para supressão de vegetação nativa e extração mineral, mas perdeu o prazo de renovação da licença, posteriormente indeferida pela pasta, e assinou um Termo de Compromisso Ambiental e Conversão de Multa (TCACM).

Diante das evidências, o Ministério Público de Goiás (MPGO) instaurou um Inquérito Civil Público (ICP) para apurar a responsabilização integral da empresa. A investigação é conduzida pela Promotoria de Justiça da Comarca de Cavalcante, sob responsabilidade da promotora Ursula Catarina.

Promotora de Cavalcante | Foto: Reprodução / MPGO

A promotora requisitou uma perícia ambiental técnica ao Ministério Público (CATEP) para avaliar a extensão dos danos e a possibilidade de recuperação da área degradada. Ela indicou que, após o laudo, a empresa poderá ser chamada para um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) ou enfrentar uma Ação Civil Pública.

Em entrevista ao Jornal Opção, Ursula confirmou que a APA tem enfrentado problemas ambientais recentes, incluindo denúncias relacionadas a crimes ambientais praticados na área protegida. “A região é ampla e possui inúmeros problemas ambientais, entre eles queimadas e desmatamento.”

Por isso, explica que o órgão atua na fiscalização das demandas, no acompanhamento do cumprimento da legislação e na adoção de medidas judiciais ou extrajudiciais quando são identificadas irregularidades. Contudo, destacou que o MP não possui assento no Conapa.

Vulcanis também afirma que a Semad mantém fiscalização permanente na área, apesar de sua grande extensão territorial e do difícil acesso. O monitoramento é realizado inicialmente por imagens de satélite, que permitem identificar pontos de desmatamento ou mineração ilegal antes do envio de equipes a campo. “A nossa fiscalização, ela é continuada para todos os efeitos em todo o território do estado. Eh, ela é feita sempre, em primeiro lugar, por meio de satélite, a gente identifica os pontos.”

A secretária também relatou uma operação realizada por volta de maio de 2026, que resultou na autuação de 23 propriedades por desmatamento sem licença em municípios como Alto Paraíso e Cavalcante.

Leia também: Audiência pública discute mineração na Chapada dos Veadeiros e revisão do plano de manejo da APA de Pouso Alto.