sexta-feira, abril 10, 2026

 

Por causa da carapaça, esta ave rara luta ara sobreviver

Os calaus-de-capacete estão virando alvo do tráfico de animais silvestres, ao mesmo tempo que encolhem os seus hábitats no Sudeste Asiático.

POR RACHAEL BALE

FOTOS DE TIM LAMÁN

PUBLICADO 26 DE SET. DE 2018, 17:57 BRT, ATUALIZADO 5 DE NOV. DE 2020, 03:22 BRT

Numa floresta no sul da Tailândia, um calau-de-capacete macho aproxima-se da árvore onde a parceira e o filhote ficaram encerrados durante meses, dependendo dele para se alimentar.

FOTO DE TIM LAMÁN

Confira a reportagem completa na edição de outubro da revista National Geographic Brasil.
 

Esta reportagem foi produzida em colaboração com o Laboratório de Ornitologia da Universidade Cornell e faz parte de um esforço para aumentar a conscientização global sobre o calau-de-capacete.

Vim para essa floresta para conhecer uma ave. Mas agora me pergunto se vale a pena tanto esforço.

O terreno no Parque Nacional Budo-Su-ngai Padi, no sul da Tailândia, é tão íngreme que, em certos trechos, dá até para a gente se inclinar para a frente e tocar com as mãos a trilha que ainda vamos percorrer. Em cada passo no solo encharcado de chuva, é enorme o risco de escorregarmos de volta lá pra baixo. Insetos zumbem nos nossos narizes e orelhas, e quem se arrisca a olhar em volta topa com um exército de sanguessugas avançando em sua direção com os pequenos corpos carnudos e ávidos de sangue.

Estamos aqui em busca do calau-de-capacete (Rhinoplax vigil), uma ave antiga, de aparência esquisita e que está se tornando cada vez mais rara. À frente do grupo está Pilai Poonswad, a “grande mãe dos calaus”. Desde 1978, essa cientista tailandesa vem estudando essas aves e lutando a favor da sua proteção. Também estão conosco o fotógrafo Tim Laman e um cinegrafista, além de membros da equipe de Pilai e alguns moradores do vilarejo que fica no sopé da montanha – são eles que carregam os suprimentos e vão nos ajudar na hora de montar o acampamento. Nós sabíamos que aquela missão seria árdua, uma espécie de odisseia – tanto pelos calaus-de-capacete serem aves muito esquivas como pela dificuldade para encontrá-las devido à rapidez com que estão desaparecendo.

 

O casco do calau – a carapaça queratinosa acima do bico – é quase todo sólido. Mais tenro que o marfim, pode servir de base para delicados entalhes de figuras e cenas artísticas. Estes cascos, esculpidos com desenhos chineses,estão confiscados nos Estados Unidos.

FOTO DE TIM LAMÁN

 

Cascos de calau-de-capacete, tigres empalhados e outros itens da fauna silvestre lotam a sala de uma repartição pública em Jacarta, na Indonésia. Bandos criminosos controlados por chineses passaram a contrabandear também os cascos do calau.

FOTO DE RIFKYRANGKONG INDONESIA

Quando, afinal, avistamos a árvore que nos interessa, guardamos uma distância de cerca de 40 metros, ocultos atrás de um pano de camuflagem e galhos entrelaçados. É uma espécie tropical, com 55 metros de altura, erguendo-se bem acima da maioria das outras árvores na floresta. E, projetando-se logo acima da metade do seu tronco, via-se uma cavidade retorcida na qual uma fêmea de calau-de-capacete havia se encerrado meses antes para botar um ovo. Do posto de observação no chão, não é possível vermos nada no interior do ninho, mas sabemos que é apenas uma questão de tempo até que o macho apareça, trazendo comida para a parceira.

As horas vão passando enquanto esperamos, devaneando, imaginando que estamos longe das formigas ou das sanguessugas ou, ainda, daquela incômoda tábua que nos serve de banco. O sol ainda está subindo, mas a umidade já me envolveu com um abraço molhado e pegajoso.

Não sou uma observadora de aves, mas imagino que essa deva ser a experiência típica de quem se dedica a isso. Meu devaneio é interrompido por uma onda se espraiando no ar – Uoosh- -uoosh! As lacunas entre as penas nas asas fazem com que os calaus sejam aves ruidosas ao voar.

 

Um caçador ilegal exibe a pele e a cabeça de um calau R. undulatus (à direita), o crânio e a carapaça de um calau-rinoceronte (no topo), assim como o casco e duas penas da cauda de um calau-de-capacete. Um intermediário rejeitou o calau-de-capacete, alegando que era pequeno demais para ser entalhado.

FOTO DE TIM LAMÁN

Hu. Hu. Hu-hu-hu, hahahaha! Então ouvimos o riso maníaco de um calau-de-capacete. Pelo som, o macho está apenas a algumas árvores de distância. Prendemos a respiração. E, de repente, lá está ele: um dinossauro vivo, medindo mais de 1 metro (sem contar as penas centrais da cauda, que lhe acrescentam mais meio metro), empoleirado na saliência do tronco, com um bicho-pau no bico, os olhos atentos espreitando ao redor.

Silêncio total à nossa volta. O calor irritante se foi, cessou o latejamento no meu tornozelo (torcido dias antes em casa, nos Estados Unidos). Acabou o tormento dos insetos, as cigarras deixaram de estrilar. Ficamos siderados diante daquela cabeça enorme, pesada com o “capacete” ou casco avermelhado sobre o bico amarelo em forma de cunha. Contemplamos o pescoço vermelho enrugado e sem penas, as longas penas pretas e brancas da cauda. É uma visão sobrenatural. Nada havia nos preparado para a sensação esmagadora de maravilhamento que sentimos.

O calau inclina-se sobre a cavidade do ninho e, através da abertura, passa o bicho-pau para o filhote. Missão cumprida, e com outro uoosh das asas, ele vai, atrás de mais comida para a família. 

Confira a reportagem completa na edição de outubro da revista National Geographic Brasil.

quarta-feira, abril 01, 2026

 Descoberta no fundo do mar faz cientistas emitirem alerta após encontrarem provas

Por Caio Bezerra 23/02/2026

Ilustração de ambiente subaquático com luz atravessando a água. Reprodução / Freepik

O fundo do oceano sempre foi visto como um território distante, quase intocado. Mas o que acontece lá embaixo pode ter consequências diretas para o planeta inteiro. Uma nova investigação científica trouxe dados concretos que mudaram o tom da conversa sobre exploraçã

Após analisarem sinais deixados por uma operação industrial em águas profundas, pesquisadores afirmam que os impactos são reais, mensuráveis e podem durar muito mais tempo do que se imaginava. O alerta não é baseado em hipótese, mas em números coletados no próprio local.

O que os cientistas encontraram no fundo do Pacífico

A descoberta ocorreu na chamada Zona Clarion-Clipperton, no Oceano Pacífico, entre o México e o Havaí. Ali, a cerca de 4.300 metros de profundidade, foi realizado um teste industrial para coletar nódulos polimetálicos. Essas formações rochosas contêm metais como níquel, cobalto e manganês, usados na produção de baterias e tecnologias ligadas à transição energética.

Durante o teste, uma máquina do tamanho de um caminhão percorreu o leito marinho sugando os nódulos do sedimento. Em poucas horas de operação, aproximadamente 3.300 toneladas de material foram retiradas.

A pesquisa, conduzida por um grupo internacional liderado por especialistas do Museu de História Natural de Londres, acompanhou a área por cinco anos. O objetivo era entender o que mudou antes e depois da atividade.

Os resultados chamaram atenção:

• a diversidade de espécies caiu cerca de 32% nas trilhas deixadas pela máquina
• a quantidade total de organismos também diminuiu
• a nuvem de sedimentos levantada alterou o equilíbrio das espécies até fora da área diretamente atingida

Nos laboratórios, os cientistas identificaram mais de 4.300 organismos, distribuídos em 788 espécies. Entre eles estavam vermes, pequenos crustáceos, moluscos e até um coral solitário que vivia preso aos nódulos e foi descrito como uma nova espécie para a ciência.

A camada superficial do fundo marinho, justamente a que foi revolvida pela máquina, é onde vive grande parte dessa vida microscópica e de pequenos animais. Ao remover os nódulos, não se retira apenas minério. Remove-se também o suporte físico onde muitos organismos se fixam e se desenvolvem.

Por que a descoberta levou ao alerta global

O ponto que mais preocupa os pesquisadores é a durabilidade do impacto. Estudos anteriores já mostravam que marcas deixadas por testes semelhantes continuavam visíveis décadas depois. Mesmo quando alguns animais retornam, a composição da comunidade não volta a ser a mesma.

Outro fator relevante é que os nódulos polimetálicos crescem em ritmo extremamente lento, apenas alguns milímetros ao longo de milhões de anos. Isso significa que, na escala humana, eles são considerados recursos não renováveis.

Além disso, o fundo abissal pode ser mais diverso do que os mapas atuais indicam. Muitas espécies aparecem em padrões irregulares, distribuídas em pequenas áreas. Quando uma região é perturbada, pode-se perder organismos que ainda nem foram totalmente estudados.

O alerta surge em um momento decisivo. A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, ligada à Organização das Nações Unidas, discute regras que podem permitir ou restringir a mineração comercial em águas internacionais. Entre os temas em debate estão:

• exigência de estudos ambientais mais rigorosos
• limites máximos de perda de biodiversidade
• monitoramento da recuperação das áreas exploradas

Parte da comunidade científica defende uma moratória, ou seja, uma pausa global na mineração em alto-mar até que haja dados suficientes para garantir que os danos não sejam irreversíveis.

Ao mesmo tempo, empresas e governos enxergam nesses metais uma peça estratégica para a economia de baixo carbono. O desafio agora é equilibrar a demanda por recursos com a preservação de ecossistemas que ainda são pouco conhecidos.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.

Caio Bezerra

Jornalista e gestor de marketing pela UniCesumar, com pós-graduação em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais e em Jornalismo e Narrativas Digitais pela ESPM. Atua há mais de seis anos como produtor e editor de conteúdo para o digital.

quinta-feira, março 26, 2026

Especialistas apontam como onça-pintada cruza fronteiras e norteia saúde ambiental

Animal foi tema de discussão na COP15, em Campo Grande

Thais Libni eJúlia Ortega

26/03/2026 09:44Atualizado em 26/03/2026 10:12

A onça-pintada, considerada como o maior felino das Américas e por atravessar dezenas de quilômetros em poucos dias, foi destaque na Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), que acontece em Campo Grande.

                       Onças-pintadas são destaque na COP15. (Foto: Bruno Sartori)

Um dos principais motivos para o debate internacional sobre a espécie é a capacidade de atravessar fronteiras entre países sem reconhecer limites territoriais.

O comportamento da espécie foi discutido no painel “Um continente, uma onça-pintada: construindo conectividade transfronteiriça na América do Sul”, que reuniu pesquisadores e representantes de diferentes países da América do Sul.

De acordo com o analista de conservação do WWF-Brasil, Felipe Feliciani, o deslocamento frequente é uma das características mais marcantes da espécie.

“As onças-pintadas se deslocam muito, andam dezenas de quilômetros todos os dias, principalmente machos jovens em processos de dispersão”, explicou.

 

            Onça-pintada Jaju inicia a travessia do rio em Porto Jofre (Foto: Fábio Paschoal)

Com o potencial para deslocamento, elas atravessam por grandes áreas, muitas vezes cruzando diferentes países, como Brasil, Paraguai e Bolívia.

Os pesquisadores desta caram que entender o modo de vida da espécie é essencial para planejar ações que garantam sua sobrevivência.

Onças indicam ambiente saudável

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“As onças-pintadas são animais topo de cadeia, ou seja, a presença da onça-pintada num território demonstra que aquele território está saudável”, afirmou Felipe Feliciani.

Segundo o analista, quando a espécie está presente, significa que há alimento suficiente e equilíbrio ecológico na região.

Grande população está no Pantanal

O Pantanal é considerado uma das áreas mais importantes para a onça-pintada no Brasil.

O estado atual do bioma ainda não é considerado crítico, mas pesquisadores alertaram na COP15 que mudanças ambientais recentes exigem atenção.

             Pantanal, lar para grande parte das onças-pintadas do país. (Foto: Reprodução)

Segundo o biólogo Rogério Cunha de Paula, coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o cenário é estável, mas pode mudar caso os impactos ambientais continuem.

“Ele ainda não chegou no ponto crítico, mas se a gente deixar descontrolado pode vir a ser um problema”, afirmou.

Fatores como alterações no fluxo natural de água e o aumento de incêndios podem afetar diretamente o habitat das onças, conta o pesquisador.

“O Pantanal é simbólico para esse debate, porque concentra populações importantes de onça-pintada e está próximo de fronteiras com outros países”, afirmou Carlos Eduardo Marinello, chefe de gabinete da Secretaria Nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

Animal cruza países sem cruzar fronteiras

O comportamento da onça-pintada de não reconhecer fronteiras políticas também foi centro do debate. O mesmo animal pode circular entre diferentes países ao longo da vida.

O representante do Ministério do Ambiente do Paraguai, Ramon Torres, explica que o comportamento natural da espécie exige grandes áreas para sobreviver.

“É importante, um elemento tão importante como o jaguar, que não reconhece limites fronterísticos políticos, mas só requer espacios naturais para poder se mover”, afirmou.

Símbolo regional e destaque na COP15

A onça-pintada é considerada um dos principais símbolos naturais do Pantanal e da biodiversidade brasileira, além da importância ecológica.

         Onça-pintada no Pantanal Mato-grossense | Foto: Mayke Toscano

De acordo com Felipe Feliciani, o animal representa equilíbrio ambiental e deve ser valorizado pela população local, por isso teve destaque na COP15.

“A presença de onças-pintadas é motivo de orgulho para o território e deve ser motivo de orgulho para o estado do Mato Grosso do Sul e para o Pantanal”, disse.

 


quarta-feira, março 18, 2026

 Cientistas usam radioatividade para proteger rinocerontes na África do Sul

Tecnologia nuclear pode ser a resposta para a preservação da espécie sob risco iminente de extinção

André Nicolau, colaboração para a CNN Brasil

            Projeto submeteu rinocerontes à injeção de isótopos radioativos de baixa intensidade  • Divulgação

 A África do Sul abriga a maior população de rinocerontes do mundo, com aproximadamente 16 mil animais, segundo autoridades locais. 

Apesar disso, a caça ilegal é considerada um problema crescente no país e representa umameaça real à sobrevivência da espécie - em 2023, 499 rinocerontes foram caçados, conforme dados do IFAW (Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal, em português).  

É neste contexto que a Universidade de Witwatersrand anunciou a criação de um projeto que une tecnologia e inovação em defesa das espécies e subespécies de rinocerontes na região. 

Radioatividade em defesa dos rinocerontes

Intitulado Projeto Rhisotope, a tecnologia prevê a aplicação de isótopos radioativos de baixa intensidade, facilitando o processo de detecção por agentes alfandegários, responsáveis pelo trabalho de proteção e combate ao comércio ilegal de chifres.

A técnica de incorporação de átomos, submetida a uma série de testes preventivos, não representa qualquer impacto à integridade física dos animais.  

O projeto envolveu pesquisadores da Universidade Wits em colaboração com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). 

A expectativa é que a utilização da tecnologia nuclear aumente consideravelmente as possibilidades de identificação e rastreamento de caçadores ilegais e eventuais receptadores dos chifres. "Esses radioisótopos podem ser detectados por equipamentos de detecção de radiação nas fronteiras de países ao redor do mundo, permitindo a interceptação eficaz de chifres traficados", destaca texto divulgado no site da universidade.

Em meios aos esforços e ações em defesa da espécie nos últimos 10 anos, a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, em português) classifica como "Quase Ameaçada" as subespécies Rinoceronte-Branco ( Ceratotherium simum) e "Criticamente Ameaçada" de Rinoceronte-Negro ( Diceros bicornis).

O professor da Universidade Wits e diretor do Projeto Rhisotope, James Larkin, celebrou o desenvolvimento do projeto que contribuirá substancialmente para a preservação da espécie. "Demonstramos, além de qualquer dúvida científica, que o processo é completamente seguro para o animal e eficaz em tornar o chifre detectável pelos sistemas de segurança nuclear alfandegários internacionais".