que matou os
últimos mamutes que viveram na Terra?
Há muito tempo, os pesquisadores pensavam que a consanguinidade havia
causado um colapso genético na última população de mamutes, mas uma nova
análise do DNA desses animais diz o contrário.
FOTO
DE ILLUSTRATION BY BETH ZAIKEN
POR RILEY BLACK
PUBLICADO 2 DE MAI. DE 2025, 07:00 BRT
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A última população
de mamutes-lanosos (na ilustração acima) viveu na russa Ilha Wrangel até sua
extinção, há cerca de 4 mil anos. Anteriormente, muitos pesquisadores
teorizaram que a consanguinidade provocou um colapso genético na população, mas
uma análise recente do DNA mostra um quadro mais complicado.
A última espécie de mamutes a
viver na Terra foi a dos mamutes-lanosos, que viveram em uma
pequena ilha por milhares de anos depois que seus parentes com
presas foram extintos no continente. Os animais desgrenhados chegaram
à Ilha Wrangel, uma faixa de terra de cerca de 150 Km de
comprimento na costa da Sibéria (na Rússia), há cerca de 10
mil anos – o que restou de uma espécie que havia se espalhado por
grande parte do Hemisfério Norte.
Mas esses mamutes também não sobreviveram. Há cerca de 4 mil
anos, os últimos mamutes-lanosos morreram e levaram a espécie à extinção para
sempre. Ninguém sabe ao certo por que os mamutes da Ilha Wrangel
acabaram desaparecendo.
Análises genéticas recentes, no entanto, indicam que a severa
contração da população de mamutes por volta dessa época deixou
os animais geneticamente vulneráveis em um mundo em rápida
mudança. As mutações que os mamutes acumularam por meio
de cruzamentos consanguíneos provavelmente não os mataram, mas
foram um fator que contribuiu para uma extinção que se
estendeu por milhares de anos.
No novo estudo, a geneticista Patrícia Pečnerová, da Universidade de
Copenhague, na Dinamarca, e seus colegas documentam as mudanças genéticas que
esse grupo de mamutes-lanosos sofreu antes de sua morte. Os novos dados,
publicados no mês passado na revista Cell, representam o capítulo final de uma
história de extinção que vinha se desenrolando muito antes de os mamutes chegarem
ao seu último refúgio.
“A extinção final dos mamutes na Ilha Wrangel é apenas a última etapa de
uma longa cadeia de eventos que levou ao desaparecimento da espécie”,
diz Pečnerová, que também é exploradora da National Geographic.
(Você pode se interessar: Descubra o
crocodilo pré-histórico que era maior que muitos dinossauros)
Humanos ou mudanças climáticas?
Os primeiros
mamutes-lanosos evoluíram há cerca de 800 mil anos, espalhando-se até
a Espanha pré-histórica,
a oeste, e a região dos Grandes Lagos da América do Norte, a leste,
durante seu apogeu. A expansão global dos mamutes-lanosos pode ser atribuída ao
ambiente peculiar que os herbívoros gigantes preferiam.
Planícies abertas e gramadas, chamadas estepes dos
mamutes, ampliaram sua área de distribuição durante as partes mais
frias da Era do Gelo,
quando as geleiras cobriam uma parte maior do planeta. Os mamutes-lanosos eram
herbívoros que prosperavam nesses habitats, em contraste com os
mastodontes elefantinos que preferiam florestas e se saíram melhor nos
períodos interglaciais mais quentes.
Quando as geleiras recuaram mais uma vez e o mundo começou a se
aquecer, há cerca de 11700 anos, o habitat dos mamutes-lanudos
começou a encolher e a se retirar em direção aos polos. Os humanos
antigos também caçavam mamutes em algumas partes da área de distribuição
dos animais. Além disso, os animais levavam muito tempo para se
reproduzir. Essas pressões combinadas causaram o colapso da
maioria das populações de mamutes.
“Embora ainda haja
muita discussão sobre o papel das mudanças climáticas e da caça humana”,
afirma Pečnerová, "o consenso atual é que ambas contribuíram para a
extinção". A extinção dos mamutes-lanosos não é sinônimo da morte
do último mamute da Ilha Wrangel, mas parte de um processo que se
desenrolou ao longo de milhares de anos, à medida que o mundo
mudava ao redor deles. hem.
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Os ossos de
mamute, semelhantes a esta presa e crânio parcial na Ilha Bolshoy Lyakhovsky,
na costa russa, podem ser uma fonte de DNA antigo que os pesquisadores podem
extrair e analisar.
FOTO DE EVEGENIA ARBUGAEVA, NAT GEO IMAGE
COLLECTION
Os últimos mamutes sobreviventes
Os mamutes
da Ilha Wrangel, na região siberiana da Rússia, foram
os últimos sobreviventes. Os animais representam um caso especial: a
extinção dos últimos membros de uma espécie que persistiu em um refúgio,
lidando com pressões diferentes das de seus antecessores no continente.
Um clima global mais quente e úmido fez com que a estepe dos mamutes
encolhesse em direção ao polo e, portanto, o fato de os mamutes terem
chegado à Ilha de Wrangel é um sinal de mudança climática antiga.
No entanto, a mudança climática por si só não levou os mamutes à
extinção, e não há nenhuma indicação de que os últimos mamutes tenham
sido caçados por humanos. Ao analisar o DNA dos mamutes extraído de ossos e
dentes, os geneticistas tentaram descobrir e entender por que a última
população sucumbiu.
Os pesquisadores por trás do novo estudo exploraram o
destino dos últimos mamutes por meio de 21 genomas de mamutes-lanosos
de diferentes períodos de tempo, representando tanto a população da Ilha de
Wrangel quanto os mamutes anteriores do continente. Pesquisas anteriores
sugeriram que os mamutes da Ilha Wrangel estavam tão isolados que mutações
genéticas prejudiciais se acumularam rapidamente entre
a população.
Nesse cenário, os mamutes acumularam tantas mutações por meio da
consanguinidade que não conseguiam mais produzir descendentes
saudáveis em número suficiente para a sobrevivência da população. No
entanto, quando Pečnerová e seus coautores analisaram os genes dos
mamutes, descobriram um caminho mais complicado para a extinção.
“Parece que toda a população começou com no máximo oito indivíduos
reprodutores, mas aumentou rapidamente para algumas centenas”, explica
Pečnerová. A genética dos mamutes reflete esse gargalo e expansão.
“Uma população de mega herbívoros de reprodução lenta que sobreviveu
por 6 mil anos foi iniciada por menos animais do que se pode contar
com as duas mãos”, observa ela, o que é um cenário mais extremo do que os
pesquisadores esperavam.
A linha do tempo para as últimas populações de mamutes na
Ilha de Wrangel, apresentada no novo artigo, é “uma oportunidade fantástica de
observar como os genomas mudaram nessa população pequena e isolada”,
diz Rebekah Rogers, geneticista da Universidade da Carolina do Norte em
Charlotte, nos Estados Unidos, que não participou do estudo.
Os genomas dos mamutes indicam que, apesar da consanguinidade,
a população da ilha logo se estabilizou e até começou a
eliminar mutações prejudiciais ao longo do tempo. “Fiquei muito surpresa com a
estabilidade genética da população”, comenta Pečnerová. Os mamutes conseguiram
sobreviver por cerca de 200 gerações antes de serem extintos. Em vez de
diminuírem, os animais estavam se mantendo firmes quando subitamente
caíram em extinção.
“A história que contávamos a nós mesmos, que escrevi
em minha tese de doutorado e apresentei em conferências, estava
errada”, afirma Pečnerová. Os últimos mamutes-lanosos não sofreram
um colapso genético. Os herbívoros sofreram os efeitos da consanguinidade,
mas isso, por si só, não parece tê-los levado à extinção.
(Sobre Animais e Ciência, leia também: Será mesmo um
lobo-terrível? Como os novos filhotes “extintos” se comparam aos lobos reais)
Uma ligação consanguínea
ou o que será que levou à extinção dos mamutes?
Os dados genéticos não apontam o tipo de pressão fatal que
acabou com os mamutes da
Ilha Wrangel, mas sugerem que o declínio foi rápido.
Um fato a ser considerado é que os seres humanos só chegaram à
Ilha Wrangel quatro séculos após a morte dos últimos mamutes. Os mamutes
podem ter morrido porque não conseguiram acompanhar as mudanças
ambientais ou os surtos de doenças, mas essas mudanças são difíceis de
rastrear por meio de um registro fóssil limitado.
Embora a última população de mamutes tenha se estabilizado, os autores
do novo estudo não podem descartar totalmente as consequências
genéticas da consanguinidade. As mutações ainda poderiam ter
deixado os mamutes vulneráveis a outras pressões e, mesmo que a população
tivesse se mantido por mais tempo, poderiam ter sido persistentes
demais para que os mamutes sobrevivessem em um local tão
isolado.
“Os eventos de extinção são muito mais complicados do que apenas um
fator”, afirma Rogers, observando que as mudanças climáticas,
as mudanças nas fontes de alimentos, as secas, as tempestades,
as doenças ou outros fatores podem ter contribuído. As
mutações prejudiciais entre os mamutes não os ajudaram, ela observa, “mas qualquer
afirmação de que os mamutes desapareceram apenas por causa de
seus genomas não reflete a história completa”.
Em vez de haver um único evento ou pressão que acabou com o
mamute-lanoso, sua extinção ocorreu por meio de milhares de anos de
mudanças climáticas e ambientais, caça humana e, por fim, as consequências de
passar por um gargalo genético. Esses herbívoros peludos estavam se
agarrando a fragmentos de habitat à medida que o clima e os ambientes da
Terra mudavam.
As consequências
genéticas de colapsos populacionais anteriores no continente significaram
que a população da Ilha Wrangel pode ter sido formada por “mamutes mortos”, que
seriam incapazes de resistir por tempo suficiente para que a estepe
de mamutes retornasse.