Os calaus-de-capacete estão virando
alvo do tráfico de animais silvestres, ao mesmo tempo que encolhem os seus
hábitats no Sudeste Asiático.
POR RACHAEL BALE
FOTOS DE TIM LAMÁN
PUBLICADO 26 DE SET. DE 2018, 17:57 BRT, ATUALIZADO 5
DE NOV. DE 2020, 03:22 BRT
Numa
floresta no sul da Tailândia, um calau-de-capacete macho aproxima-se da árvore
onde a parceira e o filhote ficaram encerrados durante meses, dependendo dele
para se alimentar.
FOTO DE TIM LAMÁN
Confira
a reportagem completa na edição de outubro da revista National Geographic
Brasil.
Esta reportagem foi
produzida em colaboração com o Laboratório de Ornitologia
da Universidade Cornell e faz parte de um esforço para aumentar
a conscientização global sobre o calau-de-capacete.
Vim para essa floresta para conhecer uma ave. Mas agora me
pergunto se vale a pena tanto esforço.
O terreno no Parque Nacional Budo-Su-ngai Padi, no sul da
Tailândia, é tão íngreme que, em certos trechos, dá até para a gente se
inclinar para a frente e tocar com as mãos a trilha que ainda vamos percorrer.
Em cada passo no solo encharcado de chuva, é enorme o risco de escorregarmos de
volta lá pra baixo. Insetos zumbem nos nossos narizes e orelhas, e quem se
arrisca a olhar em volta topa com um exército de sanguessugas avançando em sua
direção com os pequenos corpos carnudos e ávidos de sangue.
Estamos aqui em busca do
calau-de-capacete (Rhinoplax vigil), uma ave antiga, de aparência
esquisita e que está se tornando cada vez mais rara. À frente do grupo está
Pilai Poonswad, a “grande mãe dos calaus”. Desde 1978, essa cientista
tailandesa vem estudando essas aves e lutando a favor da sua proteção. Também
estão conosco o fotógrafo Tim Laman e um cinegrafista, além de membros da equipe
de Pilai e alguns moradores do vilarejo que fica no sopé da montanha – são eles
que carregam os suprimentos e vão nos ajudar na hora de montar o acampamento.
Nós sabíamos que aquela missão seria árdua, uma espécie de odisseia – tanto
pelos calaus-de-capacete serem aves muito esquivas como pela dificuldade para
encontrá-las devido à rapidez com que estão desaparecendo.
O
casco do calau – a carapaça queratinosa acima do bico – é quase todo sólido.
Mais tenro que o marfim, pode servir de base para delicados entalhes de figuras
e cenas artísticas. Estes cascos, esculpidos com desenhos chineses,estão
confiscados nos Estados Unidos.
FOTO DE TIM LAMÁN
Cascos
de calau-de-capacete, tigres empalhados e outros itens da fauna silvestre lotam
a sala de uma repartição pública em Jacarta, na Indonésia. Bandos criminosos
controlados por chineses passaram a contrabandear também os cascos do calau.
FOTO DE RIFKY, RANGKONG
INDONESIA
Quando, afinal, avistamos a árvore que nos interessa, guardamos uma
distância de cerca de 40 metros, ocultos atrás de um pano de camuflagem e
galhos entrelaçados. É uma espécie tropical, com 55 metros de altura,
erguendo-se bem acima da maioria das outras árvores na floresta. E,
projetando-se logo acima da metade do seu tronco, via-se uma cavidade retorcida
na qual uma fêmea de calau-de-capacete havia se encerrado meses antes para
botar um ovo. Do posto de observação no chão, não é possível vermos nada no
interior do ninho, mas sabemos que é apenas uma questão de tempo até que o
macho apareça, trazendo comida para a parceira.
As horas vão passando enquanto esperamos, devaneando, imaginando que
estamos longe das formigas ou das sanguessugas ou, ainda, daquela incômoda
tábua que nos serve de banco. O sol ainda está subindo, mas a umidade já me
envolveu com um abraço molhado e pegajoso.
Não sou uma
observadora de aves, mas imagino que essa deva ser a experiência típica de quem
se dedica a isso. Meu devaneio é interrompido por uma onda se espraiando no ar
– Uoosh- -uoosh! As lacunas entre as penas nas asas fazem com que os calaus sejam
aves ruidosas ao voar.
Um
caçador ilegal exibe a pele e a cabeça de um calau R. undulatus (à direita), o
crânio e a carapaça de um calau-rinoceronte (no topo), assim como o casco e
duas penas da cauda de um calau-de-capacete. Um intermediário rejeitou o
calau-de-capacete, alegando que era pequeno demais para ser entalhado.
FOTO DE TIM LAMÁN
Hu. Hu. Hu-hu-hu, hahahaha! Então ouvimos o riso maníaco de um
calau-de-capacete. Pelo som, o macho está apenas a algumas árvores de
distância. Prendemos a respiração. E, de repente, lá está ele: um dinossauro
vivo, medindo mais de 1 metro (sem contar as penas centrais da cauda, que lhe
acrescentam mais meio metro), empoleirado na saliência do tronco, com um
bicho-pau no bico, os olhos atentos espreitando ao redor.
Silêncio total à nossa volta. O calor irritante se foi, cessou o latejamento
no meu tornozelo (torcido dias antes em casa, nos Estados Unidos). Acabou o
tormento dos insetos, as cigarras deixaram de estrilar. Ficamos siderados
diante daquela cabeça enorme, pesada com o “capacete” ou casco avermelhado
sobre o bico amarelo em forma de cunha. Contemplamos o pescoço vermelho
enrugado e sem penas, as longas penas pretas e brancas da cauda. É uma visão
sobrenatural. Nada havia nos preparado para a sensação esmagadora de
maravilhamento que sentimos.
O calau inclina-se sobre a cavidade do ninho e, através da abertura,
passa o bicho-pau para o filhote. Missão cumprida, e com outro uoosh das
asas, ele vai, atrás de mais comida para a família.
Confira a reportagem completa na edição de outubro da revista National Geographic Brasil.





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