domingo, junho 07, 2026

 A milenar engenharia das malocas indígenas da Amazônia: a incrível tecnologia ancestral que constrói abrigos coletivos sem pregos ou cimento

Por Anne Silva 3 de junho de 2026

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As malocas indígenas da Amazônia não são meras habitações rústicas, mas sim sofisticadas estruturas de engenharia arquitetônica vernacular que abrigam  famílias inteiras de maneira sustentável e integrada ao ecossistema local. Estas imensas construções comunitárias, verdadeiros centros de vida social, ritual e cosmológica para inúmeras etnias, exemplificam o ápice do conhecimento tecnológico acumulado ao longo de milênios pelos povos originários sobre os materiais disponíveis em seu habitat. Sem o uso de  pregos, cimento, parafusos ou qualquer material sintético industrializado, os engenheiros da floresta erguem monumentos habitacionais que resistem às chuvas torrenciais, aos ventos fortes e ao calor intenso da região, utilizando unicamente madeira, cipós e folhas de palmeira. Esta extraordinária fusão de função, forma e cosmovisão transforma a maloca em uma das manifestações tecnológicas e históricas mais significativas do continente americano.

Pregos, parafusos e grampos

O Templo do Coletivo: Arquitetura e Cosmovisão Indígena

Para entender a complexidade de uma maloca, é fundamental reconhecer que sua construção não responde apenas a uma necessidade biológica de abrigo, mas é a materialização física da cosmovisão e da organização social de um povo. As malocas indígenas da Amazônia são estruturas de engenharia que abrigam famílias inteiras, mas são também representações do universo em microescala. Em muitas etnias da Amazônia, a forma circular ou oval da base simboliza o contorno do mundo, enquanto os postes de sustentação centrais representam as colunas invisíveis que sustentam a abóbada celeste. O espaço interno não é dividido por paredes rígidas, mas é organizado por regras sociais sutis, onde cada  família possui seu território delimitado pelas redes, fogões e pertences pessoais, mantendo-se em constante comunicação e interação com o coletivo.

Materiais de construção e acess

Segundo pesquisas antropológicas e etnoarqueológicas rigorosas, essas estruturas monumentais já eram comuns em vastas regiões amazônicas muito antes da chegada dos colonizadores europeus. Evidências de grandes aldeias circulares encontradas em diversas partes da Bacia Amazônica, muitas vezes conectadas por estradas antigas, sugerem uma história milenar de ocupação sedentária e complexa. A tecnologia de construção das malocas evoluiu em paralelo com as práticas de manejo agroflorestal, onde os povos indígenas plantavam e cultivavam as espécies de árvores e palmeiras mais adequadas para a extração de madeira e palha, garantindo a sustentabilidade dos recursos no longo prazo.

A Força da Floresta: Materiais e Sustentabilidade

A engenharia vernacular das malocas baseia-se na identificação precisa e no manejo sustentável das matérias-primas oferecidas pela floresta. A estrutura de sustentação central é constituída por troncos de árvores de madeiras extremamente duras e resistentes ao apodrecimento, como a iraúba ou o angelim, selecionadas por especialistas comunitários que conhecem as propriedades físicas de cada espécie botânica. Esses troncos monumentais são enterrados profundamente no solo arenoso ou argiloso e alinhados com precisão matemática para formar o esqueleto robusto da construção.


Para a amarração de toda a estrutura, no lugar de pregos, utiliza-se a fibra vegetal de diversos tipos de cipós, sendo o cipó-titica um dos mais valorizados por sua flexibilidade e impressionante resistência à tração e compressão. Os cipós são trançados com técnicas complexas que distribuem o peso da cobertura de forma equilibrada por toda a estrutura, permitindo que a maloca balance levemente com o vento sem rachar ou desabar, uma flexibilidade estrutural superior à de muitas construções de concreto. A cobertura é feita com folhas de palmeiras específicas, como a inajá, o tucumã ou o babaçu, que são habilmente trançadas em camadas sobrepostas para garantir a impermeabilidade total contra as chuvas equatoriais.

Ventilação e Conforto Térmico: Soluções Geniais para o Clima Tropical

A genialidade tecnológica das malocas não reside apenas em sua resistência física, mas em sua perfeita adaptação bioclimática. Em um ambiente onde o calor e a umidade são extremos, as construções industriais modernas de alvenaria e telhas metálicas frequentemente se tornam insuportavelmente quentes. As malocas, por outro lado, utilizam princípios de engenharia térmica para garantir um interior fresco e arejado. O telhado de palha, com sua grande espessura e porosidade, funciona como um isolante térmico eficiente, impedindo que o calor radiante do sol penetre na habitação durante o dia.

A forma elevada do teto, combinada com aberturas estratégicas nas cumeeiras e nas laterais baixas, cria o chamado “efeito chaminé”, um fluxo de ar natural e contínuo. O ar quente e úmido gerado internamente e pelas atividades de cozinha sobe naturalmente e é expelido pelas aberturas superiores, sendo substituído pelo ar mais fresco que entra pelas laterais próximas ao solo, mantendo o ambiente em temperatura agradável. Estudos indicam que a fumaça das pequenas fogueiras mantidas acesas para cozinhar e repelir insetos não sufoca os habitantes, pois sobe e forma uma camada de ar quente no topo do telhado que, além de ser exaurida, atua como um fumigante natural que seca e endurece a palha da cobertura, prolongando sua vida útil para muitos anos.

História e Tecnologia: Um Patrimônio a Ser Preservado

As malocas indígenas da Amazônia são estruturas de engenharia que abrigam famílias inteiras usando apenas materiais da floresta sem pregos ou cimento, e sua existência contínua ao longo de milênios é um testemunho da sofisticação e resiliência dos sistemas de conhecimento tradicionais. Ao longo da história, essas construções monumentais enfrentaram e continuam enfrentando graves ameaças, como a colonização forçada, as missões religiosas que tentaram impor moradias unifamiliares e o avanço da fronteira agrícola e extrativista que destrói as matas onde os indígenas coletam seus materiais de construção.

Organizações governamentais de proteção dos povos indígenas, como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), e importantes entidades do terceiro setor ambientalista e indigenista, como o renomado Instituto Socioambiental (ISA), dedicam esforços contínuos para monitorar a integridade dos territórios indígenas e apoiar projetos de valorização e transmissão da engenharia ancestral. Garantir a demarcação e a proteção dessas terras é fundamental não apenas para a sobrevivência física dos povos, mas para a preservação de um patrimônio tecnológico e histórico insubstituível que oferece lições valiosas sobre sustentabilidade para toda a humanidade. As malocas não são fósseis do passado, mas laboratórios vivos de uma arquitetura futura em perfeita harmonia com a mãe natureza.

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quarta-feira, junho 03, 2026

 Amazônia já foi mais úmida: estudo reconstrói o clima da região ao longo de 1,93 milhão de ano

Novo estudo reconstrói quase dois milhões de anos de clima e indica que a Amazônia ocidental e os Andes tropicais ficaram mais úmidos, com fortes oscilações durante os períodos glaciais e interglaciais.

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Sedimentos transportados pelo rio Amazonas até o Atlântico preservam sinais antigos de chuva, erosão e mudanças ambientais na bacia amazônica. 

Diego Portalanza

Diego Portalanza24/05/2026 15:525 min

A Amazônia ocidental e os Andes tropicais podem ter passado por uma mudança lenta, mas profunda: ao longo de quase dois milhões de anos, essa região teria ficado progressivamente mais úmida. A conclusão vem de um novo estudo publicado na Communications Earth & Environment, que analisou sedimentos marinhos coletados próximo à foz do rio Amazonas.

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 O trabalho ajuda a entender algo maior: como o sistema climático amazônico respondeu a grandes mudanças naturais do planeta. Para o Brasil, isso importa porque a Amazônia continua sendo uma peça-chave na circulação de umidade, na formação de chuvas e no equilíbrio climático da América do Sul.

dores analisaram um testemunho de sedimento retirado do fundo do Atlântico, em uma área influenciada pelo material transportado pelo rio Amazonas. Esse tipo de amostra funciona como um arquivo natural: camada após camada, partículas minerais e restos marinhos guardam sinais das condições ambientais de diferentes épocas.

Camadas de sedimentos no Atlântico ajudam cientistas a reconstruir quase dois milhões de anos de mudanças na chuva da Amazônia.

O registro cobre 1,93 milhão de anos, atravessando boa parte do Pleistoceno, período marcado por ciclos glaciais e interglaciais. Segundo o estudo, os sinais geoquímicos indicam aumento gradual do aporte de sedimentos continentais e do intemperismo químico, dois processos geralmente associados a maior escoamento e condições mais úmidas na Amazônia ocidental e nos Andes tropicais.

Sedimentos indicam chuva, erosão e intemperismo

O estudo usa dois indicadores principais: a razão titânio/cálcio e a razão ferro/potássio. Em linguagem simples, esses elementos ajudam a separar o que veio do continente e o que tem origem marinha.Quando há mais material continental chegando ao oceano, isso pode indicar maior transporte de sedimentos pelos rios, frequentemente ligado a mais chuva e maior escoamento.Os autores destacam três pontos importantes para interpretar esses sinais:

  • valores mais altos de Ti/Ca indicam maior entrada de material terrestre no ambiente marinho;
  • valores mais altos de Fe/K sugerem intemperismo químico mais intenso em condições úmidas;
  • parte do sinal também pode estar ligada à erosão glacial nos Andes, e não apenas à chuva.

Essa ressalva é essencial. O estudo não afirma que cada aumento nos indicadores representa, automaticamente, mais precipitação. Durante períodos frios, geleiras andinas maiores podem ter intensificado a erosão e aumentado o volume de sedimentos transportados. Por isso, o registro aponta uma combinação entre chuva, escoamento, erosão e mudanças de temperatura.

Atlântico Norte ajuda a explicar a mudança

Uma das partes mais interessantes do estudo é a ligação entre a Amazônia e o Atlântico Norte. Os pesquisadores observaram que o aumento de umidade na Amazônia ocidental coincide, em escala geológica, com uma tendência de resfriamento das águas do Atlântico Norte.

Esse resfriamento pode ter deslocado a Zona de Convergência Intertropical mais para o sul em determinados períodos.

Quando essa faixa de nuvens e chuvas se desloca, a distribuição de umidade nos trópicos muda. Em fases frias do Hemisfério Norte, a chuva pode ter sido favorecida em áreas tropicais ao sul do Equador, incluindo partes da Amazônia. O estudo também indica que os períodos glaciais foram mais instáveis, com episódios úmidos mais intensos e frequentes, em vez de uma umidade constante o tempo todo


Fruta nativa da América do Sul, milho roxo rompe fronteiras e ganha espaço na Amazônia

O passado não é uma previsão direta do futuro, mas mostra que a floresta e seus rios estão conectados a engrenagens climáticas globais. Em um mundo em aquecimento acelerado, conhecer essa memória climática ajuda a dimensionar riscos, limites e incertezas para a maior bacia hidrográfica do planeta.

Referência da notícia

A two-million-year record reveals long-term increase in precipitation over western Amazonia and the tropical Andes. 20 de maio, 2026. de Oliveira, A.S., Silva, C.G., Ferreira, F. et al.

quinta-feira, maio 28, 2026

 Mata Atlântica conectada pode triplicar absorção de carbono

Em fragmentos interligados, árvores cresceram mais e aumentou a diversidade de fungos e bactérias. pub-7552501551832151

Floresta na região de Paraty: conexão entre fragmentos contribui para aumentar a biodiversidade

Uwe Bergwitz/Getty images

Dois estudos realizados na Mata Atlântica revelaram novas facetas dos corredores ecológicos, trechos de floresta por onde animais circulam entre fragmentos de vegetação, carregando sementes que aumentam a diversidade. Uma equipe liderada por pesquisadores da Universidade de Exeter, no Reino Unido, verificou que conectar parcelas isoladas de mata em restauração pode triplicar a capacidade de estocar carbono. Ao mesmo tempo, um grupo do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP), observou um aumento na diversidade de fungos e bactérias decompositores benéficos para as plantas.

“Fragmentos conectados de mata podem absorver entre 43% e 69% mais carbono do que os mais isolados”, relata a geógrafa brasileira Thais Michele Rosan, pesquisadora em estágio de pós-doutorado na Universidade de Exeter e primeira autora de um artigo publicado em abril na revista científica Earth and Environment. Na região definida pelo estudo, oeste e litorânea, a absorção de carbono foi três vezes maior do que em outras partes da Mata Atlântica devido à umidade e à riqueza de nutrientes no solo, segundo a pesquisadora.

A equipe estimou a captura de gás carbônico entre 1986 e 2020 a partir de imagens do satélite Landsat, indicando as áreas em regeneração de todo o bioma. “Comparando as imagens ao longo do tempo é possível inferir o crescimento das árvores e quanto carbono elas capturaram nesse processo”, esclarece o biólogo Luiz Eduardo Aragão, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coautor do artigo.

“Aumentar a conectividade da floresta pode ajudar o país a se aproximar da meta de 53% de redução das emissões de carbono até 2030, estabelecida pelo Acordo de Paris”, aponta Rosan. A metodologia lhe permitiu inferir que áreas de florestas pouco conectadas podem levar, em média, cerca de 200 anos para chegar ao nível de carbono acima do solo original, enquanto nas mais conectadas o tempo pode cair para cerca de 45 anos.

A engenheira-agrônoma Simone Aparecida Vieira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que não participou do estudo, observa que as parcelas de Mata Atlântica se inserem em um mosaico de plantações, pastagens e áreas urbanas, tornando-as mais isoladas e difíceis de restaurar. Segundo ela, investigar a conectividade desse bioma fornece dados cruciais para as políticas públicas de regeneração. “A maior parte do que sabemos sobre fragmentação e efeitos de borda vem da Amazônia, onde os fragmentos costumam ser rodeados por mata e se regeneram mais rapidamente”, ressalta Vieira.


Fungos e bactérias no solo estimulam o crescimento das plantas Guilherme Martins / USP

Fungos decompositores
A conectividade florestal tem outro efeito positivo: ela aumenta a diversidade de fungos e bactérias do solo, que por sua vez estimulam o crescimento das plantas, segundo estudo publicado em março na revista científica Molecular Ecology.

“A população de fungos e bactérias decompositores, que transformam as moléculas da matéria orgânica e liberam nutrientes para as plantas, aumentou entre 5% e 13%”, conta Guilherme Martins, pesquisador de doutorado do Cena-USP e primeiro autor do estudo. Segundo ele, a diferença pode parecer pequena, mas gera impactos significativos ao longo do tempo.

“A concentração de nitrogênio produzido por bactérias, um nutriente essencial para as plantas, aumentou em até 30%”, acrescenta Martins. Segundo ele, os fungos decompositores costumam liberar uma substância grudenta chamada glomalina, que agrega as partículas do solo, deixando-o mais permeável à água e ao oxigênio, além de facilitar a atividade dos microrganismos do solo.

“Além disso, a população de patógenos que vive no solo e nas plantas diminuiu em cerca de 2% a 5%”, afirma o pesquisador. Isso aconteceu porque fungos e bactérias benéficos estimulam cooperações positivas entre si, o que acaba diminuindo a população de patógenos. Um exemplo é a bactéria Bacillus subtilis, que ataca o fungo Rhizoctonia solani, responsável pela podridão das raízes.

Segundo Vieira, esse é um dos primeiros trabalhos a avaliar o efeito da conectividade na comunidade de fungos e bactérias da Mata Atlântica. “São seres vivos fundamentais para o ambiente, mas costumam ser negligenciados nos estudos de biodiversidade.”

Martins e sua equipe visitaram áreas de floresta em regeneração nos municípios de Piracicaba, Rio Claro, Araras e Itirapina, no interior de São Paulo, e coletaram amostras de solo e serrapilheira das quais extraíram DNA para identificar as espécies de fungos e bactérias. Assim como Rosan e equipe, eles avaliaram os diferentes níveis de fragmentação usando imagens do satélite Landsat.

“Inicialmente, o impacto dos fungos e bactérias é pequeno”, relata Martins. Segundo ele, conforme as árvores crescem, pássaros e outros animais começam a trazer mais sementes de fragmentos próximos. As novas espécies, por sua vez, fornecem alimentos mais variados para os fungos decompositores. “O efeito desses organismos se torna mais intenso depois de 15 a 20 anos, quando as florestas restauradas começam a ficar mais parecidas com florestas maduras.”

“Os resultados desses dois trabalhos destacam que é fundamental conectar as florestas, permitindo que elas recuperem suas funções ecológicas por meio da ação conjunta das plantas, do solo e dos microrganismos

Projeto
Biodiversidade do solo como o papel central dos feedbacks planta-solo em sistemas agroflorestais amazônicos (nº 22/05561-0); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisadora responsável Tsai Siu Mui (USP); Bolsista Guilherme Lucio Martins; Investimento R$ 350.283,20.

Artigos científicos
MARTINS, G. L. et alConnectivity and Age of Restored Atlantic Forest Fragments Drives Composition and Functionality of the Fungal Community in the Leaf Litter Layer
Molecular Ecology. 24 mar 2026.
ROSAN, M. T. 
Forest connectivity boosts carbon recovery in regenerating Atlantic ForestsCommunications Earth & Environment. 9 abr. 2026.

sexta-feira, maio 22, 2026

Estudos de genética revelam como javalis urbanos e rurais estão se dividindo em populações biológicas distintas na Europa

Por Anne Silva 18 de maio de 2026

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O javali possui uma capacidade extraordinária de digerir celulose pura e metabolizar toxinas vegetais que seriam fatais para a maioria dos outros mamíferos de grande porte. Essa impressionante resiliência metabólica, no entanto, é apenas uma faceta de sua impressionante flexibilidade evolutiva. Nos últimos anos, esses animais deixaram de ser meros visitantes sazonais das periferias urbanas para se transformarem em verdadeiros cidadãos das metrópoles europeias. Essa transição drástica de habitat não alterou apenas a rotina de busca por alimento e os horários de descanso das varas de javalis. Cientistas confirmam que as pressões do ambiente construído pelo ser humano estão provocando modificações profundas na própria estrutura do ácido desoxirribonucleico dessas populações selvagens.

Durante muito tempo, vigorou o consenso no meio acadêmico e na gestão pública de que os javalis encontrados em praças, parques lineares e calçadas de grandes centros urbanos eram indivíduos dispersos do meio rural. Acreditava-se que esses mamíferos realizavam incursões temporárias em busca de restos de comida fácil e depois retornavam para as florestas nativas ou áreas agrícolas circundantes. Contudo, análises moleculares recentes viraram essa hipótese do avesso. Estudos indicam que os animais estabelecidos dentro dos limites das cidades não estão mais trocando genes de forma contínua com seus parentes das florestas vizinhas. Na verdade, eles estão formando núcleos populacionais geneticamente isolados e com características biológicas próprias, marcando um capítulo singular na zoologia contemporânea.

O isolamento na selva de pedra

Para compreender a magnitude dessa divisão biológica, pesquisadores de instituições internacionais de ecologia e vida silvestre realizaram uma varredura minuciosa no perfil genético de cerca de 400 animais em cidades de grande porte como Barcelona e Berlim. Ao mapear os marcadores moleculares de espécimes coletados tanto nas zonas estritamente urbanas quanto nas regiões rurais adjacentes, os cientistas encontraram um padrão de diferenciação claro e inesperado. A divergência genética entre os dois grupos é tão marcante que permite aos especialistas identificar, com precisão quase absoluta através de exames laboratoriais, se um indivíduo pertence ao ecossistema urbano ou se é nativo de áreas naturais preservadas. Cursos ecologia

Essa quebra no fluxo de genes ocorre devido a uma combinação de barreiras físicas e comportamentais. Estradas de alta rodagem, linhas ferroviárias, cercamentos industriais e a própria densidade das construções funcionam como verdadeiras muralhas ecológicas. Embora o javali seja uma espécie capaz de caminhar dezenas de quilômetros em uma única noite, o risco associado à travessia dessas infraestruturas fragmentadas reduz drasticamente o trânsito de indivíduos entre o campo e a cidade. Com o passar das gerações, os indivíduos que decidiram permanecer nos nichos urbanos começaram a se reproduzir prioritariamente entre si, fixando variantes genéticas específicas que os distinguem de forma definitiva dos espécimes rurais.

Adaptação acelerada e seleção artificial humana

O ambiente urbano funciona como um laboratório evolutivo acelerado de alta intensidade. Enquanto no meio florestal os animais estão sujeitos à pressão de predadores naturais, à escassez sazonal de frutos e à caça regulamentada, as cidades oferecem um cenário completamente oposto. Nelas, há abundância constante de resíduos orgânicos calóricos, fontes artificiais de água ao longo de todo o ano e uma ausência quase total de ameaças físicas diretas. Essa transição abrupta de nicho ecológico exige que o genoma dos animais responda de maneira rápida para garantir a sobrevivência em condições antrópicas.

Cursos e Conforme apontam investigações publicadas no periódico internacional  Science of the Total Environment, a inteligência e o oportunismo característicos da espécie desempenham um papel central nesse processo evolutivo. Os javalis que apresentam mutações genéticas ligadas a comportamentos menos ariscos e a uma maior tolerância à presença humana levam uma vantagem adaptativa considerável nas cidades. Animais excessivamente agressivos ou assustados tendem a sofrer acidentes de trânsito ou são capturados e removidos com maior frequência pelas autoridades de controle. Por outro lado, os indivíduos mais dóceis e ousados conseguem acessar com mais facilidade as fontes de alimento urbano, reproduzem-se mais e transmitem essas características genéticas favoráveis para suas respectivas ninhadas.  Ciência cologia

Implicações profundas para a ambiental

A descoberta de que os javalis das cidades formam uma unidade biológica independente altera de forma estrutural as políticas públicas de manejo de fauna. Os planos tradicionais de contenção baseados na suposição de que bastava fechar os pontos de entrada periféricos para esvaziar os núcleos urbanos tornaram-se obsoletos diante das evidências genéticas. Como as populações metropolitanas são autossustentáveis e não dependem do fluxo migratório vindo do campo, as estratégias de controle precisam ser desenhadas especificamente para o interior do tecido  urbano. Monitoramento ambiental.

A gestão integrada dessas populações exige ações sofisticadas que vão além da simples remoção física ou do abate de espécimes. Especialistas em conservação alertam para a necessidade urgente de remodelar o design urbano e os hábitos comunitários. Isso envolve a instalação de lixeiras à prova de animais silvestres, a fiscalização rigorosa contra o fornecimento voluntário de alimentos por parte da população e a manutenção de corredores verdes internos de forma monitorada. Sem um controle baseado em dados de biologia molecular, as cidades continuarão a alimentar involuntariamente um processo de domesticação involuntária e proliferação desordenada que pode intensificar os conflitos entre seres humanos e a vida selvagem.

O espelho evolutivo das nossas cidades

A transformação genética observada nos javalis europeus serve como um alerta contundente sobre o impacto profundo da atividade humana na biosfera. O crescimento das manchas urbanas não está apenas suprimindo habitats e isolando ecossistemas nativos, mas também operando como uma força seletiva sem precedentes na história do planeta. As cidades estão reescrevendo o código da vida de grandes mamíferos terrestres, moldando criaturas que se adaptam perfeitamente às nossas estruturas de concreto e resíduos. Guias ecossistemas

Esse fenômeno biológico convida a uma reflexão urgente sobre a urgência de planejarmos os espaços urbanos do futuro sob a ótica da coexistência interespécies. Compreender que a fauna silvestre responde geneticamente às nossas ações reforça a responsabilidade de desenvolver políticas de sustentabilidade que prevejam a presença desses animais. A  ciência demonstra de forma inequívoca que a natureza não é um elemento estático que recua diante do avanço das calçadas, mas uma força dinâmica que se transforma para ocupar todos os espaços disponíveis. Cabe à sociedade decidir se essa nova convivência será pautada pelo conflito contínuo ou pelo manejo científico inteligente e harmonioso.

Pesquisa ambiental

Para acompanhar mais estudos sobre ecologia e o impacto das cidades na fauna global, consulte os relatórios de biodiversidade urbana disponíveis na Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos.

quarta-feira, maio 13, 2026

Nasce primeiro filhote de kākāpō após quatro anos e reacende esperança contra extinção.

Por Bruno Sznajderman11/05/2026 às 16:16

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Os kākāpō não voam, possuem hábitos noturnos, sua reprodução ocorre a cada dois a quatro anos e são monitorados pelo Departamento de Conservação da Nova Zelândia. (Foto: Wikimedia Commons)

 

O primeiro filhote de kākāpō, papagaio da Nova Zelândia considerado uma das aves mais raras do mundo, nasceu após quatro anos sem registros de reprodução. O animal, batizado de Tiwhiri, nasceu em 14 de fevereiro, e se junta aos outros cerca de 230 indivíduos da espécie.

Os kākāpō não voam, possuem hábitos noturnos, sua reprodução ocorre a cada dois a quatro anos e são monitorados pelo Departamento de Conservação da Nova Zelândia, órgão também responsável pelo programa de recuperação da ave

kākāpō, papagaio em extinção na Nova Zelândia. (Foto: Wikimedia Commons )

A principal condição para o sucesso reprodutivo do animal é a frutificação de árvores nativas, como o rimu (Dacrydium cupressinum), encontradas por todo o país.

Além da demora da reprodução, a taxa de eclosão (percentual de ovos que efetivamente chocam) da espécie é considerada baixa; nesta temporada, dos 187 ovos encontrados, apenas 74 são férteis. Desses, nem todos eclodem ou sobrevivem até a fase da emplumação.

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Kākāpō: programa de conservação faz população da ave rara voltar a crescer

Por mais que os principais órgãos governamentais tenham sucesso no auxílio à reprodução da espécie, o kākāpō ainda é considerado um animal criticamente ameaçado de extinção, embora a situação já tenha estado pior no passado.

Nos anos 70, por exemplo, havia somente cerca de 50 animais da espécie. O número foi crescendo, principalmente após a criação do Programa de Recuperação do Kākāpō, em 1995.

Hoje, o Departamento de Conservação da Nova Zelândia monitora 236 kākāpō adultos vivos. Esse monitoramento é realizado por meio de um pequeno transmissor presente em cada ave, como uma “pequena mochila”, que permite o o rastreamento dos indivíduos.

kākāpō, uma das aves mais raras que estava em extinção na Nova Zelândia. (Foto: Wikimedia Commons )

O Programa de Recuperação da espécie, além de evitar a extinção, visa garantir condições seguras para os kākāpō se reproduzirem e prosperarem em seu habitat natural.

O local de maior foco é a Ilha Âncora de Pukenui, local de nascimento de Tiwhiri. Livre de predadores, a ilha é repleta de câmeras instaladas em ninhos, que permitem a transmissão em tempo real do nascimento dos filhotes e, segundo as lideranças dos grupos de preservação da espécie, ajudam na arrecadação de donativos e na conscientização pública sobre a extinção animal.

“A câmera kākāpō é uma ótima maneira de as pessoas verem a conservação em tempo real e fazerem sua própria contribuição para a natureza a partir de casa, do escritório ou de qualquer lugar do mundo”, afirma Tãne Davis, representante do Grupo de Recuperação kākāpō.

Reprodução assistida ajuda a salvar uma das aves mais raras do planeta

Da mesma forma que cada passo é monitorado pelos especialistas, todo o processo de reprodução é assistido, acompanhado e intervencionado. Isto não ocorre apenas para a garantia do sucesso reprodutivo mas também para a preservação da diversidade genética.

Esse processo ocorreu com Tiwhiri, que foi incubado pela fêmea Yasmin. Seu ovo havia sido retirado do ninho da mãe biológica, que já tinha quatro ovos férteis, e transferido para o de Yasmin, que não possuía nenhum ovo viável.

O processo de manejo, segundo o Departamento de Conservação, prioriza ovos e filhotes com menor representatividade genética e é essencial para evitar o enfraquecimento da espécie no longo prazo.

Após o acasalamento, o macho não participa da criação, e cerca de uma semana depois a fêmea dá início à postura (processo de colocação dos ovos). Elas podem colocar até cinco, intercalados em um período de três dias. Em seguida, o processo de incubação dura aproximadamente um mês.

Com plumagem verde, olhos posicionados para a frente e bico cinza, a espécie tem um peso maior do que os papagaios mais comuns e tem uma expectativa de vida que chega aos 100 anos.

Papagaio kākāpō. (Foto: Wikimedia Commons )

“É preciso um esforço coletivo para reverter a situação e trazer o kākāpō de volta da beira da extinção. Somos gratos por todo o apoio demonstrado ao longo dos anos por pessoas interessadas em fazer a sua parte pela natureza”, completa Tãne.