terça-feira, agosto 04, 2026

 A salamandra-das-cavernas da Península Balcânica, que virou foco de biólogos ao apresentar diferenças marcantes de tamanho e adaptação de habitat em relação à tradicional espécie-de-fogo

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27 de julho de 2026, 02.45h



O proteu vive em galerias subterrâneas e adaptou se completamente a escuridão das cavernas – gerada por IA 

Pontos-Chave do Artigo

O GIGANTE CEGO DAS CAVERNASComo a vida nas trevas profundas moldou um corpo único de 40 centímetros.

O CONTRASTE RADICAL DE HABITATAs diferenças marcantes entre o mundo subterrâneo e a vida em florestas úmidas.

O MISTÉRIO DA LONGEVIDADE EXTREMAOs dados biológicos revelados por estudos científicos em ambientes aquáticos isolados.

Nas galerias escuras e alagadas do Carste Dinárico, uma criatura pálida desafia as regras convencionais da biologia de anfíbios. Enquanto a maioria das espécies precisa da luz do sol e da vegetação terrestre, o proteu (Proteus anguinus) se desenvolveu inteiramente na água subterrânea da Península Balcânica. Com corpo alongado e adaptações fisiológicas extremas, este animal atinge dimensões superiores às de seus parentes da superfície.

Como o proteu se adaptou ao ambiente subterrâneo?

A vida nas cavernas exige transformações corporais severas para qualquer organismo vertebrado. Ao longo de milênios nas águas da Eslovênia, Croácia e Bósnia e Herzegovina, o proteu perdeu a pigmentação da pele e desenvolveu olhos atróficos cobertos por camada cutânea. Essa anatomia reduzida é compensada por receptores sensoriais altamente apurados na cabeça, permitindo a detecção de pequenas vibrações e compostos químicos dissolvidos no meio aquático.

Essa fisiologia especializada permite que esse organismo sobreviva anos sem se alimentar, mantendo o consumo metabólico reduzido em ambientes estéreis.

Quais são as diferenças de tamanho em relação à salamandra-de-fogo?

O porte físico distinto chama a atenção de pesquisadores ao comparar esses dois anfíbios europeus. Enquanto a salamandra-de-fogo (Salamandra salamandra) mede entre 15 e 25 centímetros quando adulta, o proteu consegue ultrapassar 40 centímetros de comprimento total. Esse crescimento estendido é favorecido pelo metabolismo desacelerado e pela ausência de predadores naturais de grande porte nos rios subterrâneos do Carste Dinárico.

 Mas aqui está o detalhe: a temperatura constante da água desacelera o envelhecimento, permitindo marcas centenárias de longevidade com incrível eficiência energética.

Com corpo pálido e alongado, o proteu atinge dimensões superiores às de anfíbios da superfície. – Imagem gerada por IA

Como o habitat influencia o modo de vida de cada anfíbio?

As florestas úmidas europeias abrigam a salamandra-de-fogo, um animal predominantemente terrestre que busca abrigo sob troncos caídos e folhas decompostas. Em contrapartida, o proteu nunca abandona o ambiente aquático, passando toda a sua existência imerso na escuridão total das galerias de calcário. Essa divergência radical de ecossistema moldou estratégias de caça e estruturas corporais completamente opostas entre as espécies.

As condições do meio externo moldaram adaptações biológicas específicas que diferenciam o modo de vida desses dois anfíbios na Europa continental:

  • Ambiente de caça: A salamandra-de-fogo caça invertebrados em solo úmido, enquanto o proteu captura minúsculos crustáceos na água doce.
  • Mecanismos de defesa: O anfíbio de superfície utiliza toxinas cutâneas e cores de aviso, já a espécie subterrânea depende do camuflamento na escuridão.
  • Reprodução e ovos: as fêmeas terrestres depositam larvas em riachos rasos, enquanto as cavernícolas protegem ovos em fendas rochosas submersas.

Por que o proteu conserva características larvares na fase adulta?

O fenômeno da neotenia explica por que o proteu mantém guelras externas rosadas e cauda achatada ao longo de toda a sua vida adulta. Diferente de outros anfíbios que passam por metamorfose completa para abandonar a água, essa espécie retém traços juvenis permanentes. Esse processo evolutivo permitiu a consolidação de uma existência estritamente aquática em sistemas de cavernas isolados da atmosfera externa.

É aí que a história fica intrigante: a retenção dessas estruturas corporais garante vantagem biológica nos rios subterrâneos de fluxo estável e frio.

  • Guelras externas: permitem a captação contínua de oxigênio dissolvido sem a necessidade de emergir para respirar ar atmosférico.
  • Pele fina: auxilia na respiração cutânea complementar diretamente na água subterrânea rica em minerais.
  • Nadeira caudal: facilita o deslocamento ágil e silencioso por meio de correntes de água em canais estreitos.

A baixa taxa metabólica do proteu permite que ele sobreviva longos períodos em águas profundas. – Imagem gerada por I

O que a ciência revela sobre a sobrevivência dessas espécies?

Pesquisas em biologia evolutiva demonstram que a estabilidade térmica das cavernas permitiu a preservação de linhagens antigas na Europa. Estudos dedicados à anatomia do proteu mostram que a baixa taxa metabólica e a regeneração celular avançada ajudam a compreender a longevidade incomum da espécie. O monitoramento rigoroso dessas populações aquáticas ajuda a mapear a qualidade das reservas hídricas do subsolo balcânico.

A preservação do ecossistema depende de medidas rigorosas para evitar a poluição de águas subterrâneas e a destruição de habitats frágeis.

Citação do Estudo AcadêmicoESTUDO

A análise morfológica e fisiológica do anfíbio subterrâneo confirma taxas metabólicas reduzidas e adaptações ímpares para a vida em ecossistemas limnológicos isolados.

estudo publicado no Journal of Zoology, 1997

Como a conservação protege os ecossistemas de cavernas?

A preservação do Carste Dinárico exige esforços conjuntos entre governos locais e órgãos de proteção ambiental para blindar os aquíferos. Como o proteu é extremamente sensível a alterações químicas na água, qualquer contaminação agrícola ou industrial pode dizimar populações inteiras. Proteger o ambiente subterrâneo garante a sobrevivência de espécies únicas e preserva a integridade de ecossistemas aquáticos indispensáveis.

Ambientes subterrâneos abrigam biodiversidades raras e vulneráveis, conforme aponta a análise sobre novas espécies descobertas em cavernas e formações de calcário, reforçando o compromisso global com a conservação biológica.

quarta-feira, julho 22, 2026

 Presença de golfinhos cai 59% em Fernando de Noronha, aponta estudo

Pesquisa do Projeto Golfinho Rotador registra a menor ocupação da espécie em mais de 30 anos. Cientistas investigam mudanças climáticas, turismo e aumento de tubarões-tigre como possíveis causas.

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Por Ana Clara Marinho, g1 PE

13/07/2026 16h07 Atualizado há uma semana

Golfinhos de Fernando de Noronha usam saltos para comunicação, aponta estudo/ Imagens Projeto Golfinho Rotador

Um estudo do Projeto Golfinho Rotador identificou uma queda de 59% na presença de golfinhos em Fernando de Noronha. O resultado foi registrado em 2025 e representa a menor ocupação da espécie no arquipélago desde o início do monitoramento, realizado há mais de 30 anos (veja vídeo acima)

Pesquisadores investigam as causas da redução e apontam, entre as hipóteses, as mudanças climáticas, o aumento do turismo e a maior presença de tubarões-tigres.

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Golfinhos de Fernando de Noronha são estudados há mais de 30 anos em Noroha — Foto: Projeto Golfinho Rotador/Divulgação

Durante décadas, a presença de centenas de golfinhos-rotadores na Baía dos Golfinhos, da Baía de Santo Antônio e da região Entre Ilhas fez parte da rotina de Fernando de Noronha. Os animais utilizavam essas áreas para descansar, socializar, cuidar dos filhotes e recuperar energia antes de seguir para o mar aberto em busca de alimento

Segundo o estudo, os golfinhos eram vistos em cerca de 92% dos dias do ano. A partir de 2006, porém, os pesquisadores passaram a observar mudanças no comportamento dos animais, com redução do tempo de permanência nas áreas de descanso.

Em 2025, a mudança ficou mais evidente. Pela primeira vez em mais de três décadas de monitoramento contínuo, o Projeto Golfinho Rotador registrou uma queda expressiva na ocupação das principais áreas utilizadas pela espécie no arquipélago.

Segundo o coordenador do Projeto Golfinho Rotador, o oceanógrafo José

Martins, o principal sinal de alerta não é apenas a redução no número de golfinhos, mas a quebra de um padrão que permaneceu estável por décadas.

"O dado mais importante não é apenas que observamos menos golfinhos. É que isso aconteceu depois de uma longa série histórica marcada por estabilidade. Quando um comportamento que se repetiu por tantos anos muda de forma consistente, a ciência precisa olhar para isso com muita atenção", afirmou.

Estudo

Ao longo de mais de três décadas, a equipe acumulou mais de 55 mil horas de observação na Baía dos Golfinhos, distribuídas em 5.407 dias de pesquisa. Na Baía de Santo Antônio e na região Entre Ilhas, foram registradas outras 28 mil horas de monitoramento.

Essa série histórica permitiu comparar os dados de 2025 com os registros anteriores e identificar uma mudança considerada fora do padrão observado até então.

Na Baía de Santo Antônio e na região Entre Ilhas, a média histórica era de 461 golfinhos por dia. Em 2025, o número caiu para 258 animais, uma redução de cerca de 45%.

Na Baía dos Golfinhos, principal área de descanso da espécie em Fernando de Noronha, a queda foi ainda maior. A média passou de 311 para 129 golfinhos por dia, uma redução de aproximadamente 59%.

As análises estatísticas indicam que a queda registrada em 2025 é diferente das oscilações naturais observadas entre 2004 e 2024 e representa uma mudança consistente no comportamento da espécie.

"Quando analisamos mais de trinta anos de informações, conseguimos distinguir oscilações naturais de mudanças reais. Os resultados mostram que estamos diante de um evento diferente do que costumávamos observar em Fernando de Noronha", disse José Martins.

Combinação de fatores

Os pesquisadores afirmam que ainda é cedo para apontar uma única causa para a queda na presença dos golfinhos-rotadores em Fernando de Noronha. Segundo o estudo, a mudança deve ser resultado da combinação de diferentes fatores ambientais.

"O mais provável é que estejamos diante de uma combinação de fatores ambientais atuando ao mesmo tempo. Agora é necessário aprofundar as pesquisas para compreender o que está acontecendo", afirmou o coordenador do Projeto Golfinho Rotador, José Martins.

Além da redução na frequência dos animais nas áreas usadas para descanso, reprodução e proteção, os cientistas chamam atenção para a baixa diversidade genética da população de golfinhos da ilha, o que pode aumentar a vulnerabilidade da espécie.

Mudanças climáticas

Os pesquisadores explicam que o aquecimento do oceano pode alterar as correntes marinhas e modificar a distribuição dos organismos que fazem parte da cadeia alimentar.

Com menos peixes, lulas e camarões disponíveis na região, os golfinhos podem passar a utilizar Fernando de Noronha com menos frequência.

Tubarão Tigre

Outra hipótese é o aumento da presença de tubarões-tigres nas proximidades da Baía dos Golfinhos. Estudos anteriores já identificaram a região como uma das áreas com maior ocorrência desse predador no arquipélago.

Segundo os pesquisadores, a maior presença de tubarões pode fazer com que os golfinhos permaneçam menos tempo na baía ou deixem de utilizar o local para evitar encontros com o predador.

Os cientistas também avaliam que os animais podem buscar áreas próximas ao Porto de Santo Antônio, onde a movimentação de embarcações tende a afastar os tubarões.

Turismo

Estudo indica redução na presença dos golfinhos na ilha — Foto: Projeto Golfinho Rotador/Divulgação

O aumento do turismo também está entre os fatores analisados. Em 2025, o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha recebeu 139.901 visitantes, o maior número já registrado no arquipélago.

O total de turistas superou o limite anual de 132 mil pessoas previsto no acordo de gestão compartilhada entre os governos federal e estadual. Além disso, o teto mensal de 11 mil turistas foi ultrapassado em oito meses do ano.

O estudo não estabelece uma relação direta entre o recorde de visitantes e a redução dos golfinhos. Mesmo assim, os pesquisadores avaliam que o aumento da circulação de embarcações pode interferir em comportamentos importantes da espécie.

Segundo os cientistas, quando barcos atravessam grupos de golfinhos, podem interromper momentos de descanso, reprodução e amamentação. A movimentação das embarcações também faz com que os animais permaneçam em estado de alerta por mais tempo, aumentando o gasto de energia e o estresse.

Além disso, a presença simultânea de várias embarcações pode provocar mudanças no comportamento dos golfinhos e até afetar a saúde dos animais.

Projeto Golfinho Rotador

Criado em 1990, o Projeto Golfinho Rotador desenvolve pesquisas e ações de conservação dos golfinhos em Fernando de Noronha, com apoio do Programa Petrobras Socioambiental.

Além das pesquisas, a organização promove oficinas culturais, incentiva a prática do surfe entre jovens e realiza atividades de educação ambiental nas escolas da ilha.