Inquilinas
de baleias, cracas dão pistas sobre caminho da água nas jubarte
Pesquisa inédita une 24 anos de registros para entender o padrão de fixação dos crustáceos no corpo das baleias-jubarte, que se alimentam ao filtrar água
As baleias-jubarte não viajam sozinhas. Ao longo de suas rotas
migratórias, carregam um passageiro. Seus inquilinos, crustáceos
conhecidos como cracas, se fixam nesses animais como ostras o
fazem em rochedos.
Um estudo realizado no Instituto de Biociências (IB) da USP relaciona o tamanho, a forma e a posição das cracas no corpo das baleias com o fluxo de água que passa pelos cetáceos. Pesquisadoras descobriram que os crustáceos da espécie Coronula diadema são diversos ao longo do corpo de um mesmo animal.
“Cracas mudam de forma a depender de onde elas estão na baleia,” afirma Teresa de Filippo, pesquisadora que primeiro assina o estudo. As autoras apontam que as pressões da circulação da água podem moldar a morfologia dos epibiontes — animais que se fixam em outros animais. Quanto maior a turbulência, menor a craca.
Os resultados foram publicados na revista científica Evolutionary Ecology como produto da iniciação científica de Filippo.
Os crustáceos vivem sobre o corpo das baleias – Foto: Wikimedia CommonsA parte que habitam
“Uma de nossas primeiras hipóteses era que o comportamento das baleias mudaria o formato da craca”, conta Teresa de Filippo. Isso indicaria que a agressividade dos machos durante o período reprodutivo definiria o formato e a robustez dos crustáceos associados — pelo menos, dos que permanecessem fixados.
“Mas isso não aconteceu”, continuou. As análises conduzidas pela equipe não mostram diferenças significativas entre as cracas de cetáceos machos e fêmeas. “Talvez o comportamento não seja tão diferente assim”, sugere Teresa.
As cracas estudadas foram coletadas entre 2000 e 2024 em baleias-jubarte encalhadas entre o sul da Bahia e o Rio Grande do Sul. As pesquisadoras fizeram medições morfométricas para as 136 amostras. Cada crustáceo foi fotografado e teve sua geometria analisada, o que possibilitou a comparação de diferenças de forma e tamanho entre os indivíduos.Cracas
Cracas são animais sésseis, ou seja, fixos, e hermafroditas – Foto: Wikimedia Commons
Os resultados mostram um padrão claro: cracas fixadas na região genital, próxima ao pedúnculo caudal, são menores, mais grossas e com base mais larga. O artigo sugere que a turbulência gerada pela cauda pode estar associada ao tamanho reduzido e ao aumento da robustez dos crustáceos — o movimento da natação, mais intenso na parte posterior da baleia, promoveria o desenvolvimento de crustáceos mais resistentes.
Tammy Arai – Foto: LinkedInJá aquelas fixadas nas mandíbulas, nas nadadeiras peitorais e no
ventre tendem a ser maiores e mais alongadas. Nessas regiões, as cracas são
beneficiadas por um fluxo de água mais suave e eficiente no transporte de
nutrientes, o que possibilita um desenvolvimento maior.
“É um resultado muito
interessante”, afirma Tammy Arai, orientadora de Teresa. Ela destaca que a
descoberta da variabilidade das cracas dentro de um mesmo indivíduo “é um fato
inédito”. Até agora, se imaginava que as disparidades seriam maiores entre
indivíduos diferentes.
Tammy Arai afirma que o artigo é pioneiro ao
sugerir mais um componente no estudo dos epibiontes de animais marinhos. “Não
existe nenhum outro estudo que tenha medido o quanto a hidrodinâmica afeta as
cracas de baleias e golfinhos.”
As pesquisadoras apontam que as cracas são
hermafroditas — possuem órgãos sexuais masculinos e femininos. Portanto, não há
dimorfismo sexual: todas as cracas são, a princípio, semelhantes. Fatores
ambientais, como alimentação e hidrodinâmica, moldam cada indivíduo.
Fora da caixa
“Precisamos de estudos para entender
melhor como as cracas conseguem se adaptar às baleias”, afirma Teresa de
Filippo. Para isso, ela vê na integração de áreas dentro da biologia uma
solução.
“Os animais crescem na interseção. Eles
não crescem na caixinha”, afirma a bióloga. Não se pode bater martelo nas
causas pelas quais as cracas se desenvolvem de formas diferentes ainda. Para
isso, são necessários estudos que contemplem diferentes áreas. “Por que
isso está acontecendo? Por causa da genética? Por não receberem comida direito?
Tem a ver com a hidrodinâmica?”, questiona.
As
cracas mudam de características a depender da sua posição no corpo da jubarte –
Foto: Wikimedia Commons
O artigo Phenotypic plasticity in shell morphometrics of the barnacle Coronula
diadema (Linnaeus, 1767) reflects cetacean hydrodynamics está
disponível neste link.
Mais informações: tedefilippo@usp.br ou tefilippo11@gmail.com, com
Teresa de Filippo, e iwasa-arai@usp.br, com Tammy Arai.
*Estagiário com orientação de Fabiana
Mariz
*Estagiária sob orientação de Moisés Dorado












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