sábado, dezembro 20, 2025

Inquilinas de baleias, cracas dão pistas sobre caminho da água nas jubarte

Pesquisa inédita une 24 anos de registros para entender o padrão de fixação dos crustáceos no corpo das baleias-jubarte, que se alimentam ao filtrar água

Publicado: 16/12/2025 às 8:00     Atualizado: 18/12/2025 às 13:54
Texto: Theo Schwan* Arte: Daniela Gonçalves**
       As cracas Coronula diadema são epibiontes de baleias-jubarte – Foto: Wikimedia Commons

As baleias-jubarte não viajam sozinhas. Ao longo de suas rotas 

migratórias, carregam um passageiro. Seus inquilinos, crustáceos 

conhecidos como cracas, se fixam nesses animais como ostras o

 fazem em rochedos.

Um estudo realizado no Instituto de Biociências (IB) da USP relaciona o tamanho, a forma e a posição das cracas no corpo das baleias com o fluxo de água que passa pelos cetáceos. Pesquisadoras descobriram que os crustáceos da espécie Coronula diadema são diversos ao longo do corpo de um mesmo animal.

Teresa de Filippo – Foto: LinkedIn

“Cracas mudam de forma a depender de onde elas estão na baleia,” afirma Teresa de Filippo, pesquisadora que primeiro assina o estudo. As autoras apontam que as pressões da circulação da água podem moldar a morfologia dos epibiontes — animais que se fixam em outros animais. Quanto maior a turbulência, menor a craca. 

Os resultados foram publicados na revista científica Evolutionary Ecology como produto da iniciação científica de Filippo.

        Os crustáceos vivem sobre o corpo das baleias – Foto: Wikimedia Commons

A parte que habitam

“Uma de nossas primeiras hipóteses era que o comportamento das baleias mudaria o formato da craca”, conta Teresa de Filippo. Isso indicaria que a agressividade dos machos durante o período reprodutivo definiria o formato e a robustez dos crustáceos associados — pelo menos, dos que permanecessem fixados.

“Mas isso não aconteceu”, continuou. As análises conduzidas pela equipe não mostram diferenças significativas entre as cracas de cetáceos machos e fêmeas. “Talvez o comportamento não seja tão diferente assim”, sugere Teresa.

As cracas estudadas foram coletadas entre 2000 e 2024 em baleias-jubarte encalhadas entre o sul da Bahia e o Rio Grande do Sul. As pesquisadoras fizeram medições morfométricas para as 136 amostras. Cada crustáceo foi fotografado e teve sua geometria analisada, o que possibilitou a comparação de diferenças de forma e tamanho entre os indivíduos.Cracas

                  Cracas são animais sésseis, ou seja, fixos, e hermafroditas – Foto: Wikimedia Commons 

Os resultados mostram um padrão claro: cracas fixadas na região genital, próxima ao pedúnculo caudal, são menores, mais grossas e com base mais larga. O artigo sugere que a turbulência gerada pela cauda pode estar associada ao tamanho reduzido e ao aumento da robustez dos crustáceos — o movimento da natação, mais intenso na parte posterior da baleia, promoveria o desenvolvimento de crustáceos mais resistentes. 

                                          Tammy Arai – Foto: LinkedIn

Já aquelas fixadas nas mandíbulas, nas nadadeiras peitorais e no ventre tendem a ser maiores e mais alongadas. Nessas regiões, as cracas são beneficiadas por um fluxo de água mais suave e eficiente no transporte de nutrientes, o que possibilita um desenvolvimento maior.

“É um resultado muito interessante”, afirma Tammy Arai, orientadora de Teresa. Ela destaca que a descoberta da variabilidade das cracas dentro de um mesmo indivíduo “é um fato inédito”. Até agora, se imaginava que as disparidades seriam maiores entre indivíduos diferentes.

Tammy Arai afirma que o artigo é pioneiro ao sugerir mais um componente no estudo dos epibiontes de animais marinhos. “Não existe nenhum outro estudo que tenha medido o quanto a hidrodinâmica afeta as cracas de baleias e golfinhos.”

As pesquisadoras apontam que as cracas são hermafroditas — possuem órgãos sexuais masculinos e femininos. Portanto, não há dimorfismo sexual: todas as cracas são, a princípio, semelhantes. Fatores ambientais, como alimentação e hidrodinâmica, moldam cada indivíduo.

Baleias-jubarte se alimentam ao filtrar a água – Foto: Wikimedia Commons

Fora da caixa

“Precisamos de estudos para entender melhor como as cracas conseguem se adaptar às baleias”, afirma Teresa de Filippo. Para isso, ela vê na integração de áreas dentro da biologia uma solução.

“Os animais crescem na interseção. Eles não crescem na caixinha”, afirma a bióloga. Não se pode bater martelo nas causas pelas quais as cracas se desenvolvem de formas diferentes ainda. Para isso, são necessários estudos que contemplem diferentes áreas. “Por que isso está acontecendo? Por causa da genética? Por não receberem comida direito? Tem a ver com a hidrodinâmica?”, questiona.

As cracas mudam de características a depender da sua posição no corpo da jubarte –          

Foto: Wikimedia Commons                        

O artigo Phenotypic plasticity in shell morphometrics of the barnacle Coronula diadema (Linnaeus, 1767) reflects cetacean hydrodynamics está disponível neste link.

Mais informações: tedefilippo@usp.br ou tefilippo11@gmail.com, com Teresa de Filippo, e iwasa-arai@usp.br, com Tammy Arai.

*Estagiário com orientação de Fabiana Mariz

*Estagiária sob orientação de Moisés Dorado

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