Na Groenlândia, o degelo das
geleiras movimenta nutrientes presos nas profundezas e pode elevar em até 40% a
produtividade do fitoplâncton durante o verão
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Por Roberta
Patriota 16
agosto 2026 00:00Em Ciência
Como o derretimento de
uma geleira pode alimentar a vida no oceano? A água
de degelo da Groenlândia sobe em forma de pluma, trazendo nutrientes
das profundezas e aumentando a produtividade do fitoplâncton em até 40% durante
o verão.
Por que a água de degelo favorece o crescimento do fitoplâncton?
O fenômeno começa abaixo da
superfície, onde a água doce liberada pela geleira encontra a água salgada e
mais densa do fiorde. Como é mais leve, a água de degelo sobe e
provoca um movimento vertical capaz de transportar água profunda.
Essa água traz
nutrientes como o nitrato, que funciona como um recurso essencial para o
crescimento do fitoplâncton. Esses organismos microscópicos realizam
fotossíntese e formam a base de muitas cadeias alimentares marinhas.
O processo pode ser resumido em
quatro etapas:
- Descarga: a
água doce chega ao oceano pela base da geleira.
- Ascensão: a
diferença de densidade faz a pluma subir.
- Transporte: água
profunda rica em nutrientes é incorporada ao movimento.
- Crescimento: o
fitoplâncton aproveita nutrientes e luz nas camadas superiores.
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Onde esse fenômeno foi estudado na Groenlândia?
Os pesquisadores analisaram
a Baía de Disko, conhecida localmente como Qeqertarsuup
Tunua, no oeste da Groenlândia. A região recebe a descarga da geleira Sermeq
Kujalleq, também conhecida como Jakobshavn, uma das geleiras mais ativas da
camada de gelo.
O estudo utilizou um modelo
biogeoquímico de alta resolução para reproduzir a circulação da água e comparar
os resultados com observações de clorofila feitas por satélites. Os dados
indicaram uma forte relação entre a pluma glacial e a produtividade durante o
verão.
O trabalho científico foi
publicado na revista Communications
Earth & Environment e avaliou como a descarga
subterrânea altera a disponibilidade de nutrientes na região costeira.
Quanto o fitoplâncton pode aumentar durante o verão?
As simulações indicaram que a
ressurgência provocada pela descarga glacial pode elevar a produtividade de verão entre 15% e 40% na Baía de
Disko. O efeito não ocorre de maneira uniforme, ficando mais intenso nas áreas
próximas às saídas das geleiras. Em algumas simulações, a diferença foi ainda
maior em determinados anos e locais. Quando a pluma estava presente, as
concentrações de clorofila aumentavam nas águas próximas aos fiordes, indicando
maior atividade do fitoplâncton.
Isso acontece
principalmente porque o verão chega depois do período em que a primeira
floração de primavera já consumiu boa parte dos nutrientes disponíveis na
superfície. A ressurgência de água profunda ajuda a repor parte desse material.
Mais fitoplâncton significa que
o degelo é benéfico?
Não. O aumento localizado da
produtividade não transforma o derretimento da camada de gelo em um processo
positivo. O mesmo fenômeno está associado à perda de massa da Groenlândia,
que contribui para a elevação do nível do mar.
Além disso, o efeito sobre o
carbono é menor do que o aumento de produtividade poderia sugerir. O estudo
calculou que, apesar do crescimento de verão, a absorção anual de dióxido de
carbono na área aumentaria apenas cerca de 3%, devido a outros
processos físicos e químicos.
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O que essa descoberta revela sobre a água de degelo da Groenlândia?
A descoberta mostra que o derretimento de uma geleira não altera apenas a quantidade de gelo existente. A água de degelo também modifica a circulação do oceano, transporta nutrientes e pode mudar a atividade biológica em regiões costeiras. Esse efeito ajuda a explicar por que pesquisadores estudam cada vez mais a interação entre gelo, oceano e ecossistemas.
A NASA destaca que a
descarga subterrânea pode transportar nutrientes das profundezas para águas
onde o fitoplâncton encontra luz suficiente para crescer.
O caso da Baía de Disko mostra, portanto, uma consequência menos evidente do degelo: enquanto a Groenlândia perde gelo, suas águas costeiras podem receber um pulso de nutrientes capaz de estimular a vida microscópica durante o verão. O aumento de até 40%, porém, é um efeito local e sazonal, não uma compensação para a perda de gelo.
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